segunda-feira, 24 de março de 2008

Cultura

• Trabalho não-publicado - 01/10/2006 •

Otto de Alencar de Sá-Pereira

A Cultura só existe, onde haja o Ser Humano. O que Deus, pela natureza, cria e desenvolve não é cultura. Às vezes, é inspiradora de cultura, mas não é cultura. O reflexo na Terra, da luz do Sol rebatida pela Lua, é um fenômeno natural, portanto não é cultura. Só o é do ponto de vista científico, mas não por si só. Mas se esse reflexo for belo, nós o chamamos de “luar”, inspirador de cultura, como na “Sonata ao Luar”, de Beethoven, ou no ”Claire de Lune” de Debussy, ou mesmo nos musicais folclóricos”, “Au claire de la lune, mon ami Pierrot”, “prête moi ta plume, pour écrire un mot”, etc. ou em “O Luar do Sertão”, nordestino.
Uma montanha muito alta não passa de um amontoado de terra, de rochas, de minérios, de mato e árvores. Assim nos ensinam as ciências geológica e geográfica, que são Cultura Científica; mas não, o existir próprio da montanha que não constitui Cultura. Mas se essa montanha for mesmo dificilmente acessível, o homem cria outro tipo de cultura, que é o mito como nas religiões pagãs antigas: é o Olympo, residência dos deuses gregos; ou na Germânia o Wahalla, palácio de Wotan ou Odin, das Walkírias, dos Siegfrieds e das Siegliendes, etc.
Portanto, a Cultura, para existir, exige a presença do Ser Humano, criado por Deus, com corpo e alma. E à Sua Semelhança.
Como na Teologia, costuma-se usar o termo “União hipostática”, para as três Pessoas Divinas, Pai, Filho e Espírito Santo, de um só Deus: aqui também podemos imitar a Ciência de Deus, usando o termo União Hipostática, para a profunda essência do Ser Humano no Corpo e Espírito. União tão profunda que só se dissolve com a morte, e assim mesmo, temporariamente, pois sabemos, pela Fé, contida no “Credo”, que cremos na “ressurreição da carne” e na vida eterna”. Ou seja a reunião de nosso corpo e de nossa alma, na ressurreição, o que se chama de “Corpo Glorioso”, imune às leis da Física. Que Nosso Senhor Jesus Cristo nos deu exemplo do que seria (embora Seu Corpo Glorioso fosse infinitamente superior aos nossos, uma vez que além de homem, Ele é também Deus), pelo menos três vezes, que fiquem claras, na Sagrada Escritura: No Seu nascimento, para não ferir a Virgindade Imaculada de Sua Santíssima Mãe; na Transfiguração, onde diante de S. Pedro, S. João e S. Tiago Maior, Ele quis dar uma ligeira idéia de Sua Glória no Céu; na Ressurreição, onde Ele aparecia entre os apóstolos, mas não era só espírito, pois sentava-se com eles e comia e bebia. E finalmente na gloriosa Ascensão aos Céus. Talvez, Ele se tenha utilizado de Seu Corpo Glorioso, em outras ocasiões de sua vida terrena, ocasiões, que não ficam muito claras, na Sagrada Escritura, como por exemplo, cercado por uma multidão hostil, mais de uma vez, sumiu entre eles; ou ainda quando os esbirros dos sacerdotes judeus vieram prendê-Lo, no Monte das Oliveiras, e no primeiro contato com Ele, caíram todos por terra. Só em seguida, Ele voltou à sua humanidade, permitindo que O prendessem, pois assim era necessário para a Redenção da humanidade.
É evidente, que nosso corpo glorioso, de simples “seres humanos”, não é comparável ao de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas serve para termos uma idéia dessa “União Hipostática”, entre nosso corpo e nossa alma, que é tão profunda que só termina com a morte; e depois vence a morte mas, só a vence, pelos merecimentos que recebemos da Paixão e Morte de Nosso Senhor. Mas enfim, temos essa essência do ser humano, que chamamos de “União Hipostática” e graças a ela o homem foi capaz de realizar Cultura, no processo histórico e civilizatório, também por ele edificado, no curso de sua existência.
Expliquemos melhor: quando abordamos o “luar” e a “montanha”, vistos como “Cultura”, pelo aspecto artístico e mítico, que os homens os deram, e dissemos que a montanha e o luar, por si só, não constituem Cultura, pois na verdade eram realizações da Natureza e portanto de Deus, é preciso não esquecer que o ser humano também fez cultura quando soube explicar o que era cientificamente o Luar e a montanha. Isso porque Cultura não é só arte, mas também ciência e tudo o mais que seja criado e produzido pelo homem. Como na União Hipostática temos o conjunto de corpo e espírito, e como o espírito se manifesta por suas três potências: a Razão (racionalidade ou inteligência), a Sensibilidade e a Vontade, acontece que, às vezes, é a Razão que predomina sobre a Sensibilidade e a Vontade, e aí temos com mais facilidade os descobrimentos científicos; mas às vezes, é a Sensibilidade que predomina sobre a Razão e a Vontade, e aí temos as manifestações artísticas. A União Hipostática do Ser Humano é portanto essa união fortíssima entre o corpo e o espírito. Tão forte que marcas de beleza ou de deficiências do espírito, podem se refletir no corpo e vice-versa. No que diz respeito ao corpo, pelas características orgânicas e anatômicas do Ser Humano, aqui, agora, só nos interessa nisso em que ele pode ser alterado por virtudes ou vícios do espírito e quando declaramos que todas as ciências ligadas ao corpo, como a medicina, a biologia, a zoologia, a botânica, a mineralogia, ( o corpo humano tem elementos vegetais e minerais), etc. são também Cultura, pois foram segredos da natureza, descobertos pelo homem.
Em outras palavras, tudo o que o homem criou ou descobriu na natureza utilizando-se de sua Racionalidade, de sua Sensibilidade e de sua Vontade, ou seja, das potências de seu espírito, tudo é Cultura. Desde os rabiscos das cavernas, da Idade da Pedra, até a arte de um Leonardo da Vinci, de um Miguel Ângelo ou de um Fra Angélico, constituem Cultura. Desde a primeira pedra polida da Pré-História, sendo utilizada como instrumento, até aos fantásticos computadores atuais. Desde o sopro da flauta de Pan, até uma sinfonia de Mozart ou uma cantata de Bach ou Haendel.
Desde a embarcação fluvial construída com troncos de árvores, até aos submarinos nucleares ou naves espaciais. Desde os primeiros fonemas pronunciados, balbuciados, ou desde os primeiras rabiscos talhados que possuem algum significado literário, pelo homem primitivo, até as obras de um Homero, de um Virgílio, de um Dante, de um Racine, ou Shakesperare, de um Cervantes, ou Camões, tudo é Cultura.
Desde o tronco de árvore neolítico, feito para se assentar, até ao Trono da Rainha da Inglaterra ou as poltronas confortabilíssimas da Idade Atual Contemporânea, tudo é Cultura. O que o homem realizou, utilizando-se de suas potências, que não tenha vindo de Deus, ou da natureza, repetimos, é Cultura.
A Sociologia tem uma definição de Cultura, que é bastante boa, quase atingindo a perfeição: “Cultura é a criação, o crescimento, o desenvolvimento, o aperfeiçoamento e a sofisticação de elementos que contribuam para as necessidades básicas do homem”
Por essa definição, podemos ver que, certamente em função de sua natureza e também em conseqüência do pecado original, o homem quis crescer, quis melhorar, quis progredir, mas não por amor ao Bem, ao Belo, ao Bom, ao Certo ou à Verdade, mas sim a suas necessidades básicas, por interesse próprio. Tudo o que ele fez, o fez pensando em si próprio. É um egocentrismo congênito, que só não o possuem os Santos ou aqueles que seguem à risca os Mandamentos de Deus, as palavras de Jesus ou aos ditames da Igreja. Como esses são minoria, a maior parte da humanidade fez Cultura, construiu a Civilização e edificou a História, pensando em suas necessidades básicas. Chamamos isso, até, de comportamento natural.
Mas, que necessidade básica teria um Vivaldi, ao compor sua magnifica obra sinfônica? Uma necessidade congênita herdade dos músicos anteriores, que, por sua vez, tinham recebido de outros mais antigos, da Idade Média, e esses certamente da Idade Antiga. E os da Idade Antiga, aos primeiros músicos, os proto-músicos da Pré-história que sentiam a necessidade básica de imitar ao suave cantar dos pássaros, daí a flauta de Pan; ou imitar o trovejar das tempestades, daí os primeiros instrumentos de percussão. Mas isso é mal? Não, não é mal, por isso chamamos de natural. É bom, mas não é perfeito, por causa do pecado original. Seria perfeito se o proto-músico pré-histórico e seus seguintes, quisessem fazer música pela música, por algo que ele sentisse que tratava-se de uma virtude de Deus; e não por espírito de imitação;. Mas infelizmente, a natureza humana é assim. No campo material se faz sentir ainda com mais vigor. A alimentação é, evidentemente, a necessidade mais básica do homem. Sem comida, ele morre. Como o homem é especialmente carnívoro, ele caça para comer, mas também coleta ou colhe das florestas e plantações o seu fruto, legumes, raiz ou o seu trigo. Mas o faz por interesse próprio. Novamente nos perguntamos: é natural? Sim, é natural, mas não é perfeito. E a Sagrada Escritura nos dá uma lição, logo no primeiro Livro do Antigo Testamento: No “Gêneses”.
Por que Caim matou Abel? Por ciúmes. As ofertas das gorduras animais que Abel fazia a Deus como pastor eram mais bem recebidos pelo Senhor, do que as ofertas vegetais de Caim. Como coletor agrícola. E por que? Porque Caim guardava para si os melhores produtos agrícolas e oferecia a Deus, o refugo. Abel fazia o contrário. A fumaça do altar de Abel subia aos céus, o de Caim se dispersava.
A palavra de Deus não se discute. Terá sido assim, ou foi uma lição que o próprio Deus quis nos dar para mostrar-nos que nossas primeiras necessidades básicas, sejam materiais, espirituais, intelectuais ou práticas devem ser dirigidas a Ele, e só depois a nós mesmos?
O fato é que essas necessidades básicas dirigidas por um pendor, mais perfeito, ou não, foram elaboradas pelas Potências do Espírito Humano, pela Racionalidade, pela Sensibilidade e pela Vontade. Abordemos, um pouco, essas potências do espírito humano, para que possamos entendê-las melhor:
A Razão ou Racionalidade
A Racionalidade ou Razão, confunde-se, às vezes com a Inteligência. Mas, elas não são a mesma coisa. A Razão supõe anteriormente a Inteligência, embora ela seja mais importante. A Inteligência originou-se do verbo latino “intelligere”, que significa captar. A Inteligência capta as idéias, as impressões, etc, mas não as combina., Quem as combina é a Racionalidade. Como na Física: temos a força A, a força B, a força C, independentes. De repente essas forças se chocam. Esse chocar de forças resulta em uma outra força, que é chamada, pela Física, de “Resultante”. Assim, as idéias ou impressões, captadas pela Inteligência, ao se chocarem, não resultariam em nada (como nos irracionais), se não houvesse a Racionalidade. Essa Potência Racional aproveita esse choque, e dele, tira conclusões que são as resultantes, ou sejam os Raciocínios. Esses só existem graças à Racionalidades e não graças à Inteligência. Por isso, o ser humano é chamado de “animal racional”.

Sensibilidade
É a potência dos sentimentos, dos sentidos, da sensualidade, etc. É portanto bastante abrangente: é um leque aberto que parte dos simples sentidos, visão, audição, tato, paladar, etc. E chega, em uma ação ascendente, bastante escalonada, aos mais altos sentimentos: de amor, de caridade, de desprendimento, de amor ao próximo e de amor a Deus. (O eros e o ágape expostos por Bento XVI em sua encíclica, “Deus caritas est”). É na Sensibilidade que se encontra o que há de mais sublime no Ser Humano: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Contido no 1º Mandamento da Lei de Deus, do “Livro do Gênesis”, no Antigo Testamento. Ou de igual grandeza e importância, contido no Novo Testamento, pela Palavra de Jesus Nosso Senhor no Evangelho: Não há maior amor do que aquele que dá a vida pelo irmão”. Sim, porque aquele que dá a vida pelo irmão, é movido por um amor tão grande, que só pode ser o Amor a Deus ou a um valor que seja de Deus. Como diz S. Thomas de Aquino: “Aquele que ama a um valor mais alto, mais que a si próprio, adquiriu o estado de graça, semelhante ao do Batismo, pois esse valor mais alto só pode ser Deus, ou alguma Virtude Divina”. Em outras palavras: se um músico ama a Música mais do que a si próprio, ao ponto de dar sua vida pela música, na realidade, ele ama a Deus mais do que a si próprio, pois essa música que ele ama é uma das virtudes do próprio Deus. Entretanto, a Sensibilidade pode também se fazer sentir, por sensações de baixa escala, ligadas geralmente ao sexo promíscuo, o eros mal entendido. Por isso, a Sensibilidade necessita ser dirigida pela Racionalidade. Assunto que será estudado no ponto referente ao “Equilíbrio das Potências do Espírito”. (Esse amor, seja sublime ou não, é magnificamente explicado, com os nomes de “ágape ou eros” na Encíclica “Deus Caritas est”, do Santo Padre Bento XVI).
A Vontade
É a Potência da Liberdade humana, do Livre Arbítrio, na qual o ser humano escolhe. Escolhe entre uma coisa ou outra. Escolhe entre ir ou vir; entre entrar ou sair; entre subir ou descer; entre amar ou odiar; entre estudar ou vagabundear; entre “ser” ou “não ser”, “to be or not to be”. Enfim, escolhe entre o bem ou o mal, entre o Céu ou o Inferno.
É a Potência do Alvidrio, da Liberdade, dada ao homem por Deus, durante toda a sua vida, para ele se decidir. Deus não o abandona, concede graças mas depende do homem saber aceitar e aproveitar essas graças. Como diz S. Paulo: “Tenho medo do Cristo que passa e não mais volta”.
Essas três Potências do Espírito, Razão, Sensibilidade e Vontade, como já dissemos, vão ser os elementos dinâmicos da Cultura, da Civilização, da História. Se bem equilibradas e atentas às graças de Deus, realizarão sublimidades. Se mal equilibradas, desatentas à própria existência de Deus, permitirão horrores, guerras, genocídios, estupros, monstruosidades, etc...
Entretanto, antes de estudarmos esses equilibrios ou desequilíbrios das Potências do Espírito, lembremos que essas Potências do Espírito unidas ao Corpo Humano designamos de “União Hipostática”, a Essência do Ser Humano.
Por que esse nome? Sabemos que “hippo” é cavalo, em grego. Daí o hipódromo, lugar onde os cavalos correm. O “hippo” ligado ao “stat” do verbo “stare”, latino, que significa “estar sobre”( daí o “stand” da língua inglesa), resultou a palavra “Hipostatica”, ou “estar sobre o cavalo”. É um termo medieval. Na Idade Média, “ o cavaleiro andante”, “o cavaleiro feudal”, usava uma tal parafernália de armaduras de ferro: elmo, para a cabeça, a couraça, para o tronco, as perneiras, para as pernas, e ainda as armas etc... que isto tudo junto, representava enorme peso. Considerando-se que o cavalo, de raça “percheron”, gigantesco, também se cobria com uma malha de ferro, o peso tornava-se tão grande que um cavaleiro sozinho não conseguia montar em seu corcel. Precisava do auxílio de um ou dois escudeiros ou “valets”, para realizar a façanha. Uma vez, montado, ou melhor, encaixado na sela, tornava-se uma potência militar, o tanque da Idade Média, só comparável a outro cavaleiro de semelhante postura. A União Hipostática entre cavaleiro e cavalo era inseparável. Quando, de lança em riste, os dois cavaleiros se chocavam, era a explosão atômica medieval. Se um dos dois caísse, não estava só derrotado, mas praticamente morto, pois, mesmo que não morresse da queda, seu adversário aproximava-se dele, que estatelado no chão, não se mexia, por causa da queda e também pelo peso da armadura, e terminava seu trabalho, enfiando-lhe a lança, geralmente no pescoço, parte do corpo que ficava desnuda, para facilitar o movimento da cabeça.
Assim a União Hipostática do cavaleiro e do cavalo, representavam algo quase compacto, impossível de se desunir.
Por essa razão, a Teologia e a Filosofia Medievais, pediram emprestado, aos costumes da época essa palavra, para indicar a indissolubilidade quase perpétua entre corpo e espírito. O corpo, com suas características anatômicas e orgânicas humanas; e o espírito com suas importantes Potências: A Racionalidade, a Sensibilidade, e a Vontade. O equilíbrio, antes mencionado, dessas Potências, é o fator principal da dinâmica que elabora a Cultura Positiva. Porque pode haver também Cultura Negativa. A Cultura é positiva quando traz o bem à Humanidade. Ela é negativa quando proporciona o mal. E ela é negativa, quando é produto dos desequilíbrios das Potências mencionadas.
Vejamos, agora, como se dá o equilíbrio e como acontecem os desequilíbrios. É preciso que entendamos, que os termos, por nós aqui usados, ao explicarmos o equilíbrio e os desequilíbrios, são simples, pois são para a compreensão de jovens alunos, pois este artigo, só tem pretenções de simples apostilha universitária. Dito isso: então vejamos: O Equilíbrio representa a comunhão entre a Razão e a Sensibilidade. Seria como se a Razão aconselhasse a Sensibilidade e essa ponderasse sobre a Razão. Dessa comunhão haveria algo de tão bom, que a Vontade, inebriada de prazer, aderisse inteiramente e realizasse o ato. E assim o Bem se produziria e atrás desse Bem, toda uma Cultura Positiva.
Entretanto, existem os desequilíbrios. – O primeiro tipo: seria a Razão influenciar a Vontade, quase anulando a Sensibilidade. Exemplo: Um Pai de Família que implantasse em sua família uma disciplina rigidíssima, onde não houvesse perdão nem complacência e portanto não houvesse amor, para nenhuma atitude abusiva ou discordante de um filho. Se nós dermos uma dimensão maior para esse Chefe de família, teremos um ditador nazista, fascista ou comunista, com uma cauda de atitudes de Cultura Negativa. Assim como o Chefe de Família teria usado de suas idéias perversas, racionalidade fria, sem nenhum tempero de boa vontade ou de amor, assim também os ditadores fascistas, nazistas ou comunistas, usariam de racionalidade maligna, como por exemplo, a superioridade de uma raça, com exclusão das outras, do direito de existência. Como o horror do holocausto dos judeus, praticado pelos nazistas. No comunismo, também. Embora tenha nascido de “pseudos equilíbrios” entre “capital e trabalho” sabemos que partiu de uma reação forte contra outro desequilíbrio, que consistia no capitalismo ateu inicial, onde também nãos se levava em consideração as necessidades dos mais pobres e operários (ausência de sensibilidade). Esse capitalismo causa a reação chamada socialismo e comunismo, com revoluções, atitudes violentas (tanto dos revolucionários socialistas quanto dos patrões e entidades estatais capitalistas) e até guerras, deportações, fuzilamentos, etc. Desequilíbrios, onde uma razão dominante exclue qualquer sentimento de solidariedade, de amor, de caridade. Onde a razão dominante cria doutrinas que não levam em consideração a alma, a caridade, o amor, os direitos humanos, mas somente uma pseudo justiça, fria e implacável. Os comunistas também usavam seus campos de concentração, na Sibéria, para os não comunistas.
O Segundo Desequilíbrio seria aquele no qual a Sensibilidade, uma Sensibilidade Mal Orientada, comandasse a Vontade, anulando praticamente a Razão. No campo do convívio social comum, do povo simples, podemos supor uma Mãe de Família, viúva pobre, que tem que se desdobrar para sustentar a família. Um coração enorme, de mãe extremosa, mas uma quase total ausência de racionalidade e cultura, para educar a filharada. Sem a orientação racional, com uma religiosidade confusa, onde só de destacam os sentimentos, a Mãe de Família, passa a mão na cabeça de seus filhos, principalmente dos homens, permitindo, sem querer, que os meninos tornem-se moleques, que os moleques venham a ser pivetes e esses, por sua vez, marginais. Quando o filho marginal vem a se tornar assassino, aí a Mãe acorda! Onde errei?! Desde a primeira traquinagem, não corrigida, como matar um passarinho com estilingue, e muitos outros pecadilhos, passados em brancas nuvens. Dir-se-ia que a culpa é do Estado. Claro que é. Mas foi o Estado, justamente, que movido politicamente, pela mesma forma de desequilíbrio, o autor dessa massa humana, pobre, desabrigada, inculta, irracional, onde só a sensibilidade atua, principalmente a má sensibilidade que movendo as paixões mais baixas do ser humano, proporciona crimes e pecados geralmente ligados a drogas, à perversão sexual e ao sexo promíscuo. Expliquemos melhor a culpa do Estado, do Governo, nesses assuntos. O Estado foi movido também por essas formas de desequilíbrios? Sim, a Sensibilidade anulando a Razão, e portanto a ética, o pudor de bem governar anulando a honestidade e proporcionando a corrupção descabida que constatamos hoje (e não só de hoje) entre os governantes, particularmente do nosso Brasil. Mas que Sensibilidade é essa que causa tanto mal? Quando, linhas acima, abordamos a Sensibilidade, mostramos que ela é muito abrangente, como um leque aberto, que parte dos simples sentidos e por uma escala ascendente, alcança os mais altos e sublimes sentimentos.
Entretanto quando há essa forma de desequilíbrio, onde a Sensibilidade anula a Razão, essa Sensibilidade pode ser do tipo baixo dos sentidos e do sexo descabido, ou o desequilíbrio da boa Sensibilidade, que abordaremos, em seguida. No primeiro caso, que estávamos tratando, antes um Governo que se permita ser orientado por uma má Sensibilidade, anulando o que é racional é aquele Governo onde a sensualidade desorientada, o orgulho e a vaidade, e a paixão irregular pelo poder, e a ambição pelo enriquecimento ilícito predominam. Mas, dir-se-á, esses são pecados e crimes! Sim, é verdade, mas, todos pecados e todos crimes são movidos pela Sensibilidade desregrada.
A Sensibilidade boa que também pode sofrer um processo de desequilíbrio, não orientado pela Razão, é caso raro, mas pode acontecer. Às vezes ocorre entre os Santos. Alguns Santos quando são movidos por um amor a Deus desmedido (Sensibilidade sublime), às vezes, cometem ações não orientadas pela Razão. S. Francisco de Assis, logo no início de seu processo de santificação, quando foi tocado pela graça de Deus, ainda jovem, não entendeu bem o espírito de pobreza evangélica, e, como um louco santo passou a distribuir, entre os pobres, os bens de seu pai, não tomando em consideração o 7º mandamentos da Lei de Deus (não furtarás), pois ele furtava do pai para distribuir entre os pobres, seus dinheiros e mercadorias; pois seu pai era negociante rico. Estaria S. Francisco pecando contra o 7º mandamento? Certamente que não! Ele foi só vítima de um Amor tão grande, tão grande, a Deus que desequilibrou as potências do Espírito, fazendo o amor enorme, tornar-se irracional. É claro que o amadurecimento de seu processo de santificação, corrigiu em tempo, esses desequilíbrios. Foi um desequilíbrio, onde o gigantesco Amor e Sensibilidade não consideraram a Racionalidade. Esse desequilíbrio inicial logo tornou-se equilíbrio, e S. Francisco conseguiu do Papa Inocêncio III a criação de sua Ordem que tinha como uma das principais características a pobreza, e por isso a Ordem Franciscana é até hoje conhecida como Ordem dos Padres Menores. A Ordem dos Frades Menores e todas suas realizações, no Mundo inteiro, durante esses oitocentos anos de sua existência, foi fruto do equilíbrio das potências do Espírito, visando o apostolado e a santificação. É portanto uma fantástica obra de Cultura, aqui no caso, particularmente, Cultura Religiosa. Mas não só Cultura Religiosa. Veja-se a Cultura Artística, na música, na literatura, na arquitetura (os magníficos conventos: no Rio, temos um exemplo fantástico no Convento de Stº Antônio, localizado no Largo da Carioca). - Quando definimos o Equilíbrio das Potências do Espírito e dissemos, em linguagem simples, que a Razão orientaria a Sensibilidade, que essa ponderaria sobre a Razão e que se processaria uma comunhão das duas potências, tão boa, tão agradável, que a Vontade inebriada, aderiria e realizaria o ato quizemos mostrar que esse ato seria excelente e produziria Cultura Positiva.
Andamos, depois dessa definição, abordando os desequilíbrios, com suas Culturas Negativas, chegamos a ver uma exceção curiosa, que teria sido o desequilíbrio santo da juventude de S. Francisco de Assis. Mas voltamos ao Equilíbrio, e sublinhamos a Cultura Religiosa da Ordem dos Frades Menores.
Devemos entretanto, considerar que, na Cultura/religiosa, evidentemente não se salientou só a Ordem Franciscana, e sim toda a Igreja, tanto no Clero Regular (Ordens Religiosas) quanto na clero Secular (os Padres Diocesanos).
E devemos também considerar, que o Equilíbrio das Potências do Espírito, no criar Cultura Positiva, não se limitou à Cultura Religiosa, embora essa seja a mais importante, já que a alma é superior ao corpo (como nos ensinou Leão XIII, em sua encíclica “Immortale Dei” e muitos dos seus predecessores, como S. Gregório VII, Inocêncio III, Beato Pio IX e quase todos os Papas) quando mostram a superioridade da Igreja sobre o Estado).
Temos também muitas outras formas de Culturas, como por exemplo a Cultura Teológica, Filosófica, a Política, a Social, a Cultura Científica, a Artística, a Folclórica, a Histórica, a Geográfica, etc... Mais modernamente a Cultura Informática e tantas outras. Todas elas Culturas Positivas, se não permitirem algum desequilíbrio das Potência.
A CULTURA DA IGREJA
O Principal exemplo, em toda a História da Humanidade, de Cultura Positiva, é a Santa Igreja, fundada pelo próprio Verbo de Deus encarnado, a 2ª Pessoa da Santíssima Trindade , o Filho , o Messias, o Redentor. Nosso Senhor Jesus Cristo, na pessoa de Pedro. – “ Pedro tu és pedra e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja” – “Dou-te as chaves do Reino dos Céus, os pecados que aqui perdoardes, lá serão perdoados, os que aqui retiverdes, lá serão retidos” – “O que dizem quem Eu sou? – responderam os Apóstolos: uns dizem que sois João Baptista ressuscitado, outros dizem que sois Elias, e ainda outros, que sois Isaias ressuscitado. E vós, que dizeis? Respondeu-Lhe Pedro: Tu és o Cristo, o Filho de Deus Vivo! Bendito sejas tu Pedro filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te inspiraram, mas o próprio Espírito Santo, e, portanto te digo Pedro tu és pedra... (etc como está em cima)” – “Pedro, tu me amas? – Vós o sabeis, Senhor, que Vos amo. Apascenta as minhas ovelhas. Pedro, tu me amas? – Já Vos disse Senhor, eu vos amo enormemente . Apascenta as minhas ovelhas. Pedro, Tu me amas? Senhor, Vós duvidais? Eu Vos amo acima de tudo! – Apascenta as minhas ovelhas”. (Por que três vezes? A pergunta seria proposta pelas Três Pessoas da Santíssima Trindade?) Estas frases, encontradas nos Evangelho, e ditas por Nosso Senhor, fundaram a Igreja, confirmada depois no Sacrifício da Cruz, e finalmente no Pentecostes.
Depois, foi a difusão da Doutrina, pelos Apóstolos, a escolha de Roma como centro da Cristandade, por S. Pedro e S. Paulo, onde morreu um, crucificado, de cabeça para baixo e o outro, decapitado. O crescimento da Igreja pelo mundo todo, nesses 2000 anos de Sua existência, difundindo a Palavra de Deus, o Caminho, a Verdade e a Vida, desenvolvendo a Caridade, a Fé e a Esperança. A Esperança, principalmente no Reino de Deus (que é o pedido no Pai-nosso “venha a nós o Vosso Reino”) que é o mesmo Reino de Maria (anunciado por Nossa Senhora aos videntes de Fátima: “No fim o Meu Imaculado Coração triunfará”). A Santa Igreja espalhou por todo o orbe, não só a Religião de Jesus Cristo, mas seus corolários, que constituíram os aspectos mais brilhantes de todos os aspectos de Cultura: a Filosofia e Teologia de São Thomaz de Aquino e seu seguidores as catedrais, e castelos góticos, outros estilos arquitetônicos, como o romanesco, o clássico, o barroco, etc. O canto Gregoriano os grandes poetas e músicos e artistas plásticos, cristãos, como um Dante, um Camões, um Shakespeare, um Corneille, um Bach, um Haendell, um Mozart, um Vivaldi, um Leonardo da Vinci, um Fra Angélico, um Miguel Ângelo, um Rafael, um Caravaggio, um Tiziano, etc, etc. para só citarmos os maiores. Não nos esquecendo da vida espiritual, vivida, ensinada e praticada pelos Gigantes da Igreja, que foram seus Santos: S. Pedro e S. Paulo e os Apostólos, Stº Estevão Martir, um Stº Atanásio, um S. Basílio, um Stº Agostinho, um São Boaventura, uma Stª Mônica, Santa Inez, Santa Rita de Cássia, um S. Francisco de Assis, um Stº Antonio. Reis Santos, como um S. Luiz IX de França, S. Fernando III de Castela, S. Leopoldo de Áustria, Stº Eduardo da Inglaterra, Stº Henrique da Alemanha, Stº Estêvão da Hungria, S. Wenceslau da Bohêmia, S. Casimiro da Polônia. Os grandes fundadores de Ordens. Além de S. Francisco com os Padres-menores, os Beneditinos de S. Bento, os Dominicanos de S. Domingos, os Agostinianos, um Stº Ambrósio, um Stº Alberto Magno, o Grande S. Thomaz de Aquino, uma Santa Filomena, S. Cosme e S . Damião, Stª Thereza d’Ávila, um Stº Ignácio de Loyola, S. Francisco Xavier, S. Luiz Gonzaga, Stº Stanislau Kotska, Stº Expedito, S. Gonçalo Garcia, S. Paulo Miki e os Martires do Japão, S. João Bosco, S. Francisco de Salles, Stº Affonso de Ligorio, Stª Bernadette Soubirou, S. Pio V, S. Luiz Maria Grignon de Montfort e muitos outros, centenas milhares ou milhões, canonizados ou não, que espalharam a cultura religiosa católica, nos cinco continentes, mudando o mundo pagão, em mundo cristão.
Contudo, outra Cultura, que aqui deve ser desenvolvida é a Sócio-Política. Sim, porque aquele mesmo Ser Humano, essência da União Hipostática do corpo e espírito, com suas Potências, já fartamente citadas aqui, Racionalidade, Sensibilidade e Vontade, esse Ser Humano, foi também definido, tanto por Platão, como por Aristóteles, como “Animal Político”. Por que “Animal Político”? Porque faz política? Sim, mas antes disso, porque vive na “polis”, (cidade ou sociedade). Essa “polis”, organizada, vem a constituir o âmago, da Cidade organizada por leis e governantes, a origem das Nações e dos Estados. É ai que o “animal político” passa a fazer política (onde deve existir também e especialmente, o equilíbrio das Potências do Espírito). Para entendermos esse “animal político”, temos que, mais uma vez, voltarmos ao Ser Humano aqui visto como “Pessoa ou Indivíduo”. Em linguagem corrente, pessoa ou indivíduo se identificam. Mas, mesmo nessas ocasiões, digamos populares, quando alguém é apontado como uma Pessoa, essa indicação é elogiosa. Quando entretanto, é chamado de “indivíduo”, apresenta-se aqui logo algo de pejorativo. Qual seria a diferença entre indivíduo e pessoa? Para começar, chocando o leitor, podemos afirmar, que o indivíduo não existe. Então, para que estudá-lo? O que seria o indivíduo? – O indivíduo seria o Ser Humano, observado só por suas características endógenas (hereditárias e de dons gratuitos), sem nenhuma influência externa, de fora dele. O que evidentemente é impossível! Seria, como que um Ser Humano criado em proveta e guardado em redoma. Seria quase como um “robot”. É importante estudá-lo, pois o seu coletivo, constituiria a Massa. O Santo Padre Pio XII tem um interessantíssimo pronunciamento , se não nos enganamos, à imprensa, em que ele distingue a diferença entre “Povo e Massa”. O pronunciamento do Papa foi muito importante, porque em sua época, vários ditadores de direita ou de esquerda, transformavam o Povo em Massa – Como o indivíduo não existe, a Massa também não existe, ou melhor, só existe pela força bruta ou pela lavagem cerebral. A Massa seria um conjunto de homens-robots que, virariam para a direita ou para a esquerda, olhariam para a frente ou para o lado, pensariam dessa ou daquela maneira, a partir de uma ordem do ditador ou de se acionar um botão. O povo russo, quando findou-se a União Soviética, ficou num estado tal de euforia que tudo o que havia no Capitalismo Ocidental entrou em rebordose na Rússia. Tudo o que havia de bom, mas infelizmente, também tudo o que havia de mal. Foi um verdadeiro carnaval de liberdades e de libertinagens, que, em certo ponto, ainda existe até hoje. A massa voltou a ser Povo, os indivíduos voltaram a ser Pessoas.
Então, o que será a Pessoa? Esta, é o Ser Humano verdadeiro, composto não só de categorias endógenas (hereditárias e dons gratuitos)_ mas também e principalmente de categorias ou influências exógenas, de fora deles, de caráter físico ou social. Ou seja, a Pessoa Humana, em sua formação, constitue-se de sua herança genética (endógena), de seus dons gratuitos (também endógenos, como por exemplo, certas vocações especiais. Beethoven nasceu em uma família de funcionários públicos, sem a menor tendência para a música, ele entretanto recebeu, de Deus, esse dom gratuito, que, evidentemente pôde desenvolver, porque nasceu em Bonn e educou-se em Viena. Se ele tivesse nascido no Congo, do século XIX, e recebesse o mesmo dom gratuito, não teria composto, é lógico, toda a sua fantástica obra sinfônica de concertos e sinfonias e sua obra pianística de sonatas, etc, mas, com toda a certeza comporia batuques e outros ritmos africanos, com genialidade), mas constituem-se também de suas influências exógenas. Como já dissemos, estas influências podem ser de caráter social ou físico Caráter Social: um Ser Humano, nascido no Brasil, pela influência da sociedade, vai falar a língua portuguesa, vai gostar de futebol, vai gostar de carnaval, vai ser cristão (talvez não católico, como seria se tivesse nascido antes da II Guerra Mundial), vai ter características de bondade, de ingenuidade, de convivência agradável, não será ambicioso, etc (evidentemente estamos enumerando a grande maioria do povo, embora haja exceções). Nestas influências, naturalmente, há variações, riquíssimas de modalidades que esse Brasil continental apresenta no povo brasileiro, sotaques diversos, desde o gaúcho, ao paulista, desde o carioca ao baiano, desde ao pernambucano ou maranhense, etc... Têm sotaques diferentes, alguns hábitos e costumes bem diferenciados, culinárias de gostos diversos, etc, etc... mas, todos falam o português, gostam de futebol e carnaval e são cristãos.
Caráter Físico – embora pareça estranho, o meio ambiente físico, contribue também muitíssimo, na formação da Pessoa. Quem nasce em região montanhosa tem características bem diversas daquele que teve seu berço na planície e ou junto ao litoral. A diferença entre o carioca e o paulista é frisante. Por causa das praias e clima, do Rio de Janeiro, o carioca, sem dúvida, tem menos ânimo para o trabalho, do que o paulista. Entretanto o paulista, depois de trabalhar incessantemente, durante o dia, quer descansar e divertir-se à noite, daí a vida noturna paulista, ser bem mais intensa que a carioca.
Este exemplo entre o carioca e o paulista, pode ser repetido em outras condições, pelos nascidos nas mais diferentes regiões do Brasil-Continente.
Não vale a pena ficarmos repetindo inúmeros desses exemplos.
Seguindo o pensamento, tínhamos visto que o coletivo do Indivíduo é a Massa. Qual então o coletivo da Pessoa? É o Grupo Social. Esse Grupo Social é mesmo a célula da Nação. Ele apresenta-se com inúmeras facetas: grupo social familiar, grupo social de estudantes, grupo social de trabalho; militar; religioso; artístico; profissional; etc. São inúmeros os tipos de Grupos Sociais, mas, o interessante, é que uma mesma pessoa pode pertencer a todos eles, ou a quase todos, ao mesmo tempo.
O conjunto desses Grupos Sociais constituem a Nação. Porém, estes Grupos Sociais, para constituírem uma determinada Nação, precisam de características semelhantes: a mesma língua, a mesma raça, a mesma religião, os mesmos aspectos psicológicos, as mesmas tradições, costumes e o Patriotismo, amor a Pátria, etc. Evidentemente não é obrigatório que todas essas características apareçam sempre, em cada nacionalidade, mas algumas são imprescindíveis. Ex.: No Brasil fala-se o português, do Amapá ao Arroio Chuí; do Acre ao Rio Grande do Norte, ou seja, de norte a sul, de oeste a leste. Não temos a mesma raça, nem a mesma religião, mas sim a mesma História, as mesmas tradições, características psicológicas e principalmente o patriotismo. Não só no Brasil, alguns elementos diferentes, também ocorrem em outra nações. Só como um exemplo, no Reino da Bélgica, o povo fala duas línguas, o francês e o flamengo e ainda vários dialetos. Portanto nem todas as nações têm estas mesmas características sempre presentes, mas tendo algumas importantes, já podem considerar-se uma nação, principalmente o patriotismo. É por isso que, podemos afirmar, sem medo de errar, que no século XVIII, o Brasil já podia ser considerado uma Nação. Durante as invasões holandesas, no Nordeste brasileiro, quem expulsou os holandeses, não foram portugueses ou espanhóis ( o Brasil esteve sob o poder dos Reis de Espanha, por causa da União Ibérica, de 1580 a 1640) e sim brasileiros: brasileiros brancos, brasileiros índios, brasileiros negros e brasileiros mestiços, todos unidos por uma causa comum, o patriotismo. Não éramos ainda um Estado, no século XVII, mas já éramos uma Nação. Por que não éramos ainda um Estado? Para entendermos esse ponto precisamos abordar os Elementos Básicos da Nacionalidade para, por meio deles, chegarmos ao Estado.
Esses Elementos Básicos da Nacionalidade compõem-se de três: o Elemento chamado Povo; o Elemento chamado Terra, e finalmente o Elemento intitulado de Instituições.
primeiro Elemento, o Povo, é aquele que acima vimos: grupos sociais reunidos, contendo características comuns. Porém, esse Povo precisa residir em algum lugar; e aí temos o segundo elemento, - a Terra, que é o território Geográfico onde vive o povo da Nação. Esse Território não precisa ser determinado ou mensurado, por seu tamanho ou por sua continuidade. Existem Territórios enormes, como Brasil, EE.UU, Rússia, China, existem Territórios Grandes, como Argentina, Alemanha, França, Peru, etc. Existem os pequenos como a Bélgica, a Holanda, Portugal, Costa Rica, Honduras, Nicarágua, Laos, Camboja, etc e existem os minúsculos como Luxemburgo, Andorra, Liechtenstein, Mônaco, Kwait, Emirados Árabes, etc...
Existem também territórios contínuos e descontínuos. O Brasil é um enorme território contínuo, já os EE.UU não são porque vários estados de sua Federação estão separados do todo, ou pelo mar, como Hawaí, ou por terra, como o Alaska (entrecortado pelo Canadá).
O terceiro Elemento, as Instituições, constituem organizações criadas pelo homem, (pelo Ser Humano – Pessoa Nacional), para facilitarem a vida em Sociedade. Então existem Instituições Sociais, Econômicas, Culturais, Pedagógicas, etc. E Políticas. Um exemplo de uma Instituição Política, é um partido político. É também o Municipalismo, é também uma Lei Básica, chamada Constituição, etc... Quando a Nação passa a possuir essas características políticas, ela não é mais, só uma Nação, mas também um Estado. Pode não ser um Estado soberano, mas é um Estado. O Brasil, depois de já ser Nação, e com a organização política determinada por Portugal, era um Estado, mas não um Estado Soberano. Quando a Família Real Portuguesa chega ao brasil, e o Príncipe Regente D. João (a Rainha era sua mãe D. Maria I, mas estava afastada do Trono, por doença mental) eleva, em 1815, o Brasil a Reino, embora ainda unido a Portugal e Algarve, ele passa a ser um Estado Semi-Soberano. Quando finalmente em 1822, o Príncipe Regente D. Pedro( seu pai D. João VI havia voltado para Portugal, deixando-o como Príncipe Regente do Brasil) corta seus laços com Portugal, e proclama a Independência, criando o Império do Brasil; esse finalmente, torna-se um Estado Soberano. Por isso a definição de Estado é Nação politicamente organizada. Tendo chegado à noção de Estado soberano, no assunto Cultura Sócio-Política, devemos completá-lo, com uma noção de Formas de Governo.
Sim, porque não pode existir Estado, sem Governo. E esse apresenta-se em d uas Formas Básicas: ou Monarquia ou República. Essas Formas Básicas se dividem em Sistemas. – Por exemplo, na Forma de Governo, Monarquia, apresentam-se Sistemas diversos como o Absolutista, o Constitucional, o Constitucional – Parlamentarista, e o Parlamentarista não Constitucional, como é o Reino Unido da Grã-Bretanha que é uma Monarquia Parlamentarista, mas não possue uma Constituição. – Na Forma de Governo República, também apresentam-se diversos Sistemas, como o Presidencialista, o Parlamentarista e o Ditatorial.
Forma Monárquica de Governo: a palavra vem do grego Monocracia “ governo de um só; mas é claro que as Monarquias modernas não mais apresentam esse aspecto monocrático. A característica principal das Monarquias modernas, se evidencia em uma profunda união entre o Rei e seu Povo e na função arbitral exercida pelo monarca, acima dos partidos e dos poderes executivo, legislativo e judiciário. – A Monarquia no Sistema Absolutista – centralizava mais o poder nas mãos dos Reis, mas mesmo, assim havia as tradições, a Igreja, as corporações populares e muitas outras entidades que tornavam o Rei, mais Rei e menos tirano (como eram, em geral, os orientais). Na Monarquia Constitucional, o Poder do Rei, como o Poder do Executivo, ou o Legislativo e o Judiciário vem positivados na Constituição. Nesse sistema, em geral, o Rei ocupa o Poder Executivo, embora possa delegá-lo a um Primeiro Ministro.
Na Monarquia Constitucional Parlamentarista, o Rei exerce a Chefia do Estado, enquanto que a Chefia do Governo será exercida por um Primeiro Ministro eleito pelo Parlamento.
Na Monarquia só Parlamentarista, (que o Reino Unido da Grã Bretanha é caso único, no mundo, pelo menos que se saiba) o Rei ou Rainha da Inglaterra é Chefe de Estado e só exerce suas funções em alguma crise nacional, dissolvendo o Parlamento e promovendo, logo, novas eleições. O Parlamento é que elege o Executivo (Primeiro Ministro e demais Ministros). Geralmente a Rainha nomeia como 1º Ministro, o líder do Partido Majoritário no Parlamento.
É evidente que esses Sistemas da Forma de Monarquia de governo, são os mais freqüentes, mas existem muitas outras, por esse mundo afora, que nem bem conhecemos. Só para termos uma idéia, as mais conhecidas monarquias européias, como a Inglaterra, a Espanha, a Bélgica, a Holanda, a Dinamarca, a Suécia, o Luxemburgo, Mônaco e Liechtenstein, são quase todas Parlamentaristas e Constitucionais, mas cada uma delas, apresenta particularidades tão diferentes, que é difícil classificá-las, num todo de Sistema Monárquico. Se sairmos da Europa, então, encontraremos dezenas de tipos diferentes de Monarquias, tanto na África, quanto na Ásia ou Oceania. Ex: alguns países africanos (da África negra) são monarquias, como o Lesoto, o Burundi, etc... Porém, as grandes repúblicas africanas, criadas artificialmente, das antigas colônias inglesas, francesas, portuguesas, espanholas, italianas, e alemães, são organismos políticos, como já dissemos, artificiais, mas que se dividem em tribos inúmeras, que obedecem aos seus chefes tradicionais (os Reis), e que, em geral, não obedecem ao governo central republicano. Conseqüências, as guerras infindáveis, que exigem constantes intervenções da ONU. Assim, só na África encontramos centenas de monarquias, pequenas porém orgânicas, e que são obrigadas a obedecer aos governos fantoches republicanos (geralmente militares) e cada uma com suas características e tradições próprias.
Na Ásia, ou melhor no Mundo Islâmico, (uma vez que começa no norte da África, atinge o Oriente Médio e chega à Ásia propriamente dita) temos geralmente monarquias absolutas como a Arábia Saudita, o Kweit, etc. Há algumas que simulam uma participação democrática, como o Marrocos e a Jordânia, etc. Se entramos na verdadeira Ásia, saindo do Paquistão islâmico, e adentrarmos na Índia, na China, no Laos, no Camboja, na Tailândia, no Japão, na Coréia, etc... Verificaremos países que são monarquias completas (como a Tailândia, o Laos, o Camboja, o Japão, etc) mas, nas outras, acontece o mesmo fenômeno citado na África, repúblicas divididas em inúmeras monarquias. A Índia é uma república unitária, mas seus presidentes e ministros para governarem, precisam estar em constantes conversações com os antigos Rajás e Marajás (que perderam oficialmente seus poderes, mas que continuam super-ricos e com poder moral sobre seus povos). O mesmo acontece na Malásia, na Indonésia, etc... A China é um caso a parte, pois o governo republicano comunista fez uma verdadeira lavagem cerebral no povo chinês, mas mesmo assim, nas ruelas mais imundas e minúsculas que são cruzadas pelas grandes avenidas modernas das grandes cidades da República, nessas ruelas encontram-se príncipes, nobres, sacerdotes e povo da antiga China que guardam, com o risco da própria vida, objetos, relíquias, documentos da China Imperial.Todas essas monarquias, reinantes ou não, possuem as diferentes características que já tínhamos abordado.
Forma Republicana de Governo
Como diz o nome, trata-se do governo da “coisa pública” – “res publica”. Mas é um nome mal dado, uma vez que na monarquia também se trata da “coisa pública”. Tanto que Dante Alighiere escreveu um tratado assim intitulado: “O Governo da República pelo Rei”. A palavra República pode ser examinada por dois aspectos: o antigo e o moderno – O antigo, representado magnificamente pela “República Romana”, representava, de fato, o governo da coisa pública; mas, essa coisa pública era dirigida preferencialmente pela aristocracia. Só, mais tarde, o povo passou a participar ligeiramente, pelo “tribuno da plebe”, e por leis que concediam alguns, direitos aos plebeus. Sabemos entretanto, pela História, que essa república Romana, quase democratizada, acabou ruindo, pelas mãos dos militares, ou da classe aristocrática ou da classe dos cavaleiros (miscigenação entre aristocratas e plebeus, causada, quase sempre pelas guerras), transformando-se no Império Romano, que não era propriamente uma monarquia, mas sim uma ditadura militar e das classes dominantes. Esse Império só se tornou uma monarquia, quando convertido ao cristianismo (século IV d. C) passou a ser bafejado pela doutrina cristã.
O aspecto moderno da República é aquele que nasce a partir da Revolução Francesa de 1789, e que pretendeu tornar-se de fato um governo, “pelo povo, para o povo, com o povo” etc como diz a Constituição norte Americana.
É comum confundir-se República com Democracia. A democracia é, de fato, um Governo exercido pelo povo. Mas a maior parte das monarquias modernas são democráticas, pois se o monarca exerce a Chefia do Estado, a Chefia do governo é escolhida pelo Povo. No entanto há repúblicas (infelizmente a maioria) que não são democráticas. Geralmente transformadas em ditaduras militares, como já houve e há em todos os países da América Latina, e prolifera enormemente na África e na Ásia.
A República deveria ser, pelo espírito que a criou, um espírito igualitário, onde todos tivessem meios de acesso ao governo, onde não houvesse corrupção, onde todos pudessem entender e conhecer a História de seu país e de ciência política.
Os sistemas, da Forma Republicana, que já abordamos, anteriormente, apresentam dois deles, características não democráticas: O Presidencialismo e o Totalitarismo. Esse último não precisa de melhores explicações para se ver seu caráter não democrático. O Presidencialismo, o mais adotado no Continente Americano, é, mais ou menos, uma ditadura com tempo limitado, pois apensar das Constituições Republicanas Presidencialistas declararem que seus três poderes se igualam e comungam harmônicamente das mesmas potencialidades, tal fica só na letra das Constituições, pois na realidade prática, o Executivo comanda e desmanda o Legislativo e o Judiciário, com raríssimas exceções. Já foi dito que Luís XIV, o mais absoluto dos reis de França, teria inveja dos poderes atribuídos ao Presidente dos Estados Unidos.
Sem sobra de dúvidas, o mais democrático dos Sistemas Republicanos, é o Parlamentarista. E por que? Porque é uma imitação do Parlamentarismo Monárquico da Inglaterra, pais onde nasceu a democracia, nos tempos modernos.
O Parlamentarismo tem Chefe de Estado e Chefe de Governo (o Chefe de Estado é uma imitação do Rei parlamentarista), chamado de Presidente; e o Chefe de Governo é o Primeiro Ministro, nomeado pelo Presidente, mas escolhido pelo Parlamento. Tanto o Presidente como o Primeiro Ministro acabam, sendo eleitos pelo Parlamento, e só este é que é eleito pelo Povo. Evidentemente, no Sistema Presidencialista, tanto o Poder Executivo (Presidente) quando o Legislativo (Congresso Nacional) são eleitos diretamente pelo Povo, mas já ficou visto que, pelo menos nas Repúblicas Presidencialistas da América Latina, da África e também da Ásia, essas eleições são corruptas e não tem nada de democráticas, daí várias dessas repúblicas, em sua História, terem se tornado Ditaduras.
Aqui temos, pois, um resumo dos Governos que apresentam-se na direção dos Estados, dentro desse assunto de Cultura Sóciopolítica.
FIM.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

AS PROVAS DE DEUS


As provas de Deus

• Trabalho não-publicado - 01/02/2007 •
Otto de Alencar de Sá-Pereira
I
Deus deu ao homem a potência da Vontade, ou Livre Arbítrio para que ele, usando de suas outras potências, a Racionalidade e a Sensibilidade, escolhesse livremente entre fazer o bem ou fazer o mal.
Os minerais, os vegetais e os animais irracionais, cumprem à risca, a Vontade de Deus, justamente porque não têm alma, com suas potencialidades racionais, sensitivas e volitivas. Portanto, seguem as Leis da Natureza, que são as Leis Matemáticas, Físicas, Químicas, Astronômicas, Biológicas, etc, que têm Deus como Autor; e assim, não pecam, pois jamais contrariam a Vontade do Senhor.
Ao homem, contudo, Deus destinou outros caminhos; pois, desde toda a Eternidade, Ele queria unir-Se ao homem, para que esse ser, material e espiritual, ao mesmo tempo, pudesse gozar de Sua glória, de Seu Saber, de Sua Luz e Beleza de Sua Felicidade, etc, eternamente.
Aos Anjos, puros espíritos, portanto superiores ao homem, Deus submeteu-os uma única prova. E essa Única Prova permitiu que os Anjos que escolheram bem, preferindo o Bem, como na frase de S. Miguel Arcanjo: “Quis ut Deus?” Permanecessem na Glória, na companhia do Altíssimo.
E os outros, que escolheram mal, por orgulho, pretenderam ser como outros deuses, estes foram, para sempre, precipitados no Inferno, ou Reino das Trevas e da Iniqüidade, e são Lúcifer ou Satanás e seus sequazes, os demônios. Isto aconteceu com os Anjos, porque estes, de natureza muito superior aos homens, tinham, tem e sempre terão o conhecimento instantâneo de todas as coisas. Alguns teólogos chegam a explicar, a revolta destes anjos-demônios, a um fator muito específico. Conhecendo o futuro, eles puderam constatar, que seriam obrigados a adorar e servir, a um Homem-Deus, que, enquanto Homem, seria de natureza inferior à deles: Jesus Cristo, Nosso Senhor. O orgulho de muitos não aceitou esta situação. E ainda pior, deveriam servir a uma Mulher, Mãe de Jesus, que seria a Rainha dos Anjos; um ser somente de natureza humana, e que nem era homem, mas mulher: Maria Santíssima! Seu incomensurável orgulho, não poderia entender, a maior de todas as Qualidades, a Humildade, fruto das Virtudes Teologias: Fé, Esperança e principalmente Caridade, e portanto, não viram que Maria, possuindo essa Qualidade e essas Virtudes, em grau sublime, era Ela a obra prima de Deus!
O homem, entretanto, não era Anjo. O conhecimento do homem dependia da Inteligência, da Racionalidade, da Sensibilidade e da Vontade, dependia do equilíbrio ou desequilíbrio destas Potencialidades, era portanto, mais lento. E o homem vivia no tempo e não na Eternidade. Destinou-se à Eternidade, mas vivia no tempo; logo, não poderia ser submetido a uma Única Prova.
E então, nos narra a Sagrada Escritura e a História, tiveram início as Provas: A primeira, aconteceu ainda no Paraíso Terrestre: Deus deu ao homem o poder sobre toda a Natureza. Mas pôs o homem à Prova. E Prova de Fidelidade e de Amor: “Não comerás do fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal”. E o homem, tentado pelo demônio, em forma de serpente, e também por sua companheira, Eva, o comeu, faltando com a Fidelidade e Amor a Deus, que tudo lhe tinha dado, a começar pela própria existência.
Esta foi a Primeira Prova, e que acarretou no pecado original, com todas suas conseqüências maléficas para a Humanidade.
Se nessa Primeira Prova, o homem foi infiel, na Segunda, ao contrário, foi de uma Fé espantosa. Noé constrói uma arca, em região montanhosa, longe de qualquer mar, lago, rio ou lagoa, só porque Deus lhe mandou que o fizesse. Essa Prova Deus gostou; porque a Fé consiste, exatamente, em obedecer à Palavra de Deus, por mais absurda ou paradoxal que ela pareça ser. E Noé, ainda teve que sofrer, o deboche e a chacota de seus vizinhos e contemporâneos, e até mesmo a dúvida de sua sanidade, por parte da mulher, filhos e noras.
E veio o dilúvio e a Fé de Noé salvou a Humanidade, da completa extinção.
Chegamos agora, cronologicamente (embora, talvez pulando Provas menores da História do homem), ao episódio de Fé e Amor, mais lindo do Antigo Testamento. É a figura magnífica do Pai do Povo Hebreu: Abraão!!! Deus lhe tinha dito: “Terás uma descendência tão numerosa quanto as estrelas do céu”; mas, sua mulher, Sara, era estéril e já atingira uma idade, na qual as mulheres não podem mais procriar. E Sara riu-se quando o marido lhe relatou a Palavra de Deus. E Sara não engravidava, pondo à Prova a Fé de Abraão, mas esse nunca deixou-se levar pela dúvida. Sara, entretanto, interpretou, à moda dela, a Vontade do Senhor. Convenceu o marido a dormir com sua escrava Agar, pois daí, nascendo um filho, esse seria de Abraão, embora bastardo, e se resolveria a questão, pois naquela época, os filhos das escravas com o Senhor, eram considerados filhos da Senhora. E nasceu Ismael, a raiz do povo árabe. Deus perdoou Abraão, e também abençoou Ismael, prometendo que este também seria o tronco de outro numerosíssimo povo. Mas, não seria ele o início da progênie prometida, e sim o filho que Sara viesse a ter. Sara não creu que Deus assim se tivesse manifestado, mas Abraão manteve a sua Fé, na Prova de Deus. Até que, milagrosamente, Sara, já na sua velhice, deu à luz Isaac. Parecia que a Prova de Deus, tinha sido finalmente realizada, graças à Fé inquebrantável de Abraão. Porém, Deus queria mais, pois conhecia bem seu filho Abraão. E ordenou a Abraão: Pega os instrumentos de sacrifício, e a lenha e leva teu filho à terra de Moriá, e sobre a montanha sacrifica-o a Mim, teu único filho. Abraão não entendeu mais nada, mas obedeceu. Isaac era o filho do milagre; aquele que constituía a esperança para que se realizasse a promessa de Deus a ele: “ Terás uma descendência tão numerosa quanto as estrelas do céu!” E essa esperança parecia ir agora águas abaixo, já que Deus ordenava o sacrifício de Isaac. A Prova de Deus era quase insustentável, mas Abraão obedeceu. Quando entretanto, o sacrifico estava prestes a se realizar, a mão do pai, já erguida empunhando o punhal sacrifical, sobre o filho amarrado sobre o altar, onde estava a lenha, para a cremação do corpo, após a punhalada, o Anjo do Senhor fez ouvir Sua voz, ordenando a interrupção do sacrifício, sendo o menino substituído por um cabritinho, que apareceu, tendo seus chifres presos nos arbustos. E a vos tonitruante fez-se ouvir. “Agora Eu sei que temes a Deus pois, não Me recusaste teu único filho!” Esta foi a maior Prova que Deus impôs ao homem, até chegarmos à época da Encarnação do Verbo de Deus. Mas, antes do Mistério da Encarnação, ainda outras Provas, Deus imporia ao homem porém veremos em próximos artigos.
II
Isaac, filho de Abraão, teve dois filhos gêmeos: Esaú e Jacob; E Deus continuou com Suas Provas. Esaú tinha nascido primeiro, portanto era considerado primogênito. Jacob era o segundogênito. Isaac preferiu Esaú, mas sua mulher e prima Rebeca tinha maior amor por Jacob. Rebeca, sem saber, estava certa por preferir a Jacob. (A Ciência, hoje em dia, está quase afirmando, que, em caso de gêmeos, o que nasce em segundo lugar é que é o primogênito, pois teria sido gerado primeiramente). Jacob era pastor e homem dado às coisas de Deus e do espírito era de pele lisa e quase imberbe. Esaú era caçador, tinha o corpo todo coberto de pelos e era dado mais às coisas dos homens e da matéria. Essa a razão pela qual Rebeca preferia seu filho Jacob a Esaú, embora amasse a ambos. Isaac também amava a ambos os filhos, mas tinha predileção por Esaú, por acreditá-lo primogênito. Isaac estava preso à Lei e pela Lei da época Esaú é que deveria ser o primordial herdeiro, que deveria receber a bênção principal do pai, antes desse morrer, e essa bênção, era como o “Mana” de tantos povos, uma espécie de Transmissão de Poder Espiritual e Temporal, algo de taumaturgia. Mas, como já disse, Rebeca tinha razão. O preferido de Deus era Jacob. Deus põe Isaac à Prova antes de morrer. As circunstâncias todos conhecem, mas não custa rememorar. Os dois irmãos estavam longe de casa; Esaú tinha ido caçar e Jacob ficara com suas ovelhas, e, para alimentar-se, cozinhava umas lentilhas. Chega Esaú, sem ter sido bem sucedido na sua caça, e pede ao irmão um prato de lentilhas. Jacob consente, mas sob uma condição: que Esáu lhe transferisse seus direitos de primogenitura. Esaú, morto de fome, aceita o acordo, certamente julgando que aquele ato jurídico de boca, não teria valor. Jacob comunica à sua mãe, o que se tinha passado, e ela vê naquilo, a mão de Deus. Mas, para todos os efeitos, inclusive para Isaac, Esaú continuava a ser o herdeiro. Passam-se os anos e Isaac, muito doente e cego, está para morrer. Chama Esaú e lhe diz que não quer morrer, sem antes provar do guisado de uma caça de Esaú. E este parte para a caçada. Ao comer o guisado, Isaac sabia que iria morrer. Rebeca ouvira a conversa do pai com o filho. Chama então Jacob e diz-lhe que corte a lã de uma ovelha e cubra seus braços e pescoço para se parecer com Esaú, enquanto ela preparava o guisado de um cabrito, de modo que Isaac gostava. Faz Jacob vestir as melhores roupas de Esaú, para ficar com o cheiro de Esaú e o manda apresentar-se ao pai, levando o guisado. Isaac desconfia da voz de Jacob, diferente da de Esaú, mas quando Jacob, aos pés da cama lhe apresenta o guisado, do modo que Esaú costumava cozinhar, e tocando nos braços do filho, o sente coberto de pelos, como os de Esaú, Isaac acredita ser mesmo Esaú e depois de comer concede-lhe a Bênção taumatúrgica, que era uma só. Quando Esaú volta e constata que tinha sido enganado, reclama com o pai. É aí que Deus põe Isaac à Prova. Pois este não volta atrás. A bênção taumatúrgica já tinha sido concedida, e não poderia ser substituída. E bem concedida, apesar do engodo. Pois Jacob era o verdadeiro herdeiro e tinha se casado com mulher de seu sangue, o que era indispensável, enquanto Esaú unira-se a estrangeira. Isaac sofrera a Prova de Deus, mas aceitou, não voltando atrás.
Jacob teve 12 filhos com suas mulheres e primas, Lia e Rachel, e também com algumas escravas de suas mulheres legais. Estes 12 filhos são a origem das 12 tribos de Israel. Todo israelita ou judeu, descende de um destes filhos de Jacob, por isso, Deus trocou o nome de Jacob para Israel.

Outras provas de Deus
III
O grande Camões tem um lindo poema bíblico, que assim se inicia:
Sete anos de pastor Jacob servia A Labão, pai de Rachel, serrana bela,Mas não servia a ele e sim a ela,Pois só a dela sua mão pretendia
De fato, ainda em tempos de Isaac, Jacob foi trabalhar nas terras de seu tio Labão, a mando do pai, para conseguir casar-se dentro de sua linhagem, como era o hábito. Labão tinha duas filhas: Lia e Rachel. Jacob fez um trato com o tio. Trabalharia para ele durante sete anos e depois receberia, como prêmio, a mão de Rachel, a quem amava. Passados os setes anos, o tio e sogro Labão, nãio obedeceu ao acordo, e lhe deu Lia, como esposa. Para conseguir Rachel, Jacob deveria trabalhar mais sete anos. (Deus permitia a poligamia, neste momento da História de Seu povo, talvez, segundo alguns teólogos, para formar o povo de Deus, fazendo-o crescer, pela poligamia). Assim foi, e Jacob, depois de sete anos obteve sua amada Rachel. A maior parte dos filhos, nascidos na juventude de Jacob, eram de Lia ou das concubinas, só dois foram filhos de seu grande amor, Rachel: José e Benjamin.
Como os irmãos quase sempre eram filhos de mães diferentes, não se tornavam muito amigos. Eram divididos em grupos; e o grupo mais fraco era o composto pelos filhos de Rachel: José e Benjamin, por serem os mais moços. Os outros invejavam principalmente a José, devido sua inteligência e capacidade de decifrar sonhos, um certo dom sobrenatural. Passando por sua terra, uma caravana comercial, em direção ao Egito, os filhos mais velhos de Jacob, resolveram livrarem-se de José e o venderam, como escravo aos mercadores. Para enganarem o Pai de que José havia morrido, mataram um animal, e com seu sangue embeberam roupas de José. Jacob acreditou e lamentou imensamente a morte do filho, que era o preferido, com muito pranto e longo luto. José, em chegando ao Egito, foi vendido como escravo, como auxiliar de cozinha no Palácio do Vizir do Faraó. Lá ficou famoso pois interpretava os sonhos de funcionários e até do próprio Vizir (uma espécie de grão-chanceler do Faraó). O Faraó estava atormentado por sonhos estranhos, os célebres, das sete vacas magras e sete vacas gordas, das sete espigas fracas e sete espigas fortes etc.
O Vizir sabendo do estupor de seu senhor, o Faraó, aconselha-o a ouvir o escravo hebreu, chamado José. E José, como todos sabem, interpretou os sonhos do Faraó, como setes anos de fartura, que seriam seguidos por setes de fome, aconselhando o Faraó a estocar grãos, nos setes anos de fartura, para enfrentar os setes anos de fome. Aconteceu exatamente o que o “pseudovisionário” José previra, e o Faraó ficou tão maravilhado, não só com a interpretação dos sonhos, como com todas as atitudes e conselhos de José, que resolveu fazê-lo seu Vizir (isto só foi possível, porque as Dinastias dos Faraós, desta época, não eram Dinastias autenticamente egípcias, mas dos invasores hicsos, que, por sinal, eram também semitas; os Faraós autenticamente egípcios eram profundamente xenófobos). Nesta época em que José é Vizir do Faraó, acontece à visita ao Egito de seus irmãos, menos, Benjamin, à procura de alimentos, pois a terra em que viviam (Corredor Sírio-Palestiano), passava por terrível seca. José reconhece os irmãos, mas estes não o reconheceram, pois José se desenvolvera fisicamente e se ataviava à moda egípcia e própria da sua hierarquia, com tinturas, brocados, mantos e jóias. Foi então aí, que Deus pôs à prova as virtudes de José: amor e perdão! Ele não se deu a conhecer logo, mas, com perguntas, ficou sabendo que seu velho pai Jacob, ainda vivia, e que tinha ficado, em suas terras, com o filho caçula Benjamin. Exigiu, para ajudá-los, que voltassem à terra natal e buscassem, Jacob e Benjamin. Enfim, como todos conhecem, com idas e vindas, e dinheiro que aparecia nas bolsas das mulas dos irmãos, com acusações de serem ladrões, enfim, depois de todos estes castigos, José deu-se a conhecer, já na presença do Pai e do irmão Benjamin. José, com o poder que detinha no Egito, poderia ter-se vingado dos irmãos maldosos, poderia tê-los escravizado e até matá-los. Mas não, foi fiel ao espírito do Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, e perdoou-os e fê-los virem morar no Egito.
Foi no Egito, que as tribos dos descendentes dos filhos de Jacob desenvolveram-se e tornaram-se verdadeiramente uma Nação: a Nação de Israel a única monoteísta do mundo da época, do povo de Deus. Foi no Egito, que quando as Dinastias verdadeiramente egípcias recuperaram o poder, expulsando os hicsos, a Nação de Israel foi escravizada, porque voltou o xenofobismo. Foi no Egito, finalmente, que nasceu Moisés, que libertou seu povo do jugo egípcio, mas isso só aconteceu graças a José ter sido fiel a mais esta Prova de Deus.
IV
Os Hebreus ou Judeus foram morar no Egito, na época das Dinastias Hicsas, de Faraós que não eram egípcios. Dinastias XIII, XIV, XV e XVI. Dinastias de origem semítica, como os hebreus, daí a tolerância não xenofóbica. José e seus irmãos, filhos de Jacob, edificaram a nação hebréia ou israelita, em solo egípcio. Seus descendentes, apesar do meio ambiente egípcio, e que era forte, não perderam a sua língua materna, seus costumes, tradições e principalmente sua religião, aquela do Deus Verdadeiro, Javé, “Aquele que é”. Não foi, nem será: É, ontem hoje, amanhã e sempre, desde toda a Eternidade. Fenômeno sócio-político-religioso que só poderia mesmo acontecer com o Povo de Deus. Entretanto, por volta de 1400 a.C., a última Dinastia Hicsa é vencida pela XVII Dinastia autenticamente egípcia, descendente das antigas Dinastias do Antigo e Médio Império. Essa XVII Dinastia vai reconstruir o verdadeiro Egito e naturalmente restabelecer a xenofobia e portanto escravizando “todos os não egípcios, e entre eles o povo de Israel (Hebreus ou Judeus)”. Por duzentos anos o Povo de Deus sofrerá a escravidão egípcia, até o surgimento de Moisés. A Prova que Deus prepara agora, para salvar Seu povo, não será só de Moisés, mas também do povo todo, como um “totum”. Moisés tinha sido criado por uma Princesa egípcia, filha do Faraó, e se julgava egípcio. Circunstâncias ocorreram, as mais estranhas, que levaram Moisés a saber, de sua verdadeira raça, a hebréia; inclusive assassina um soldado egípcio que maltratava escravos de seu povo. Por isso, é exilado, e vai morar na Península do Sinai, onde se casa e constitui família. É lá que ele recebe a primeira Revelação de Deus, que o ordena que volte ao Egito e liberte Seu povo. Moisés não duvida da Prova de Deus que se lhe está sendo imposta, mas argumenta com o Senhor, que lhe parece impossível convencer e vencer o Faraó de libertar o povo hebreu, e ainda põe esse obstáculo: eu não falo bem, sou gago. Deus lhe responde, que seu irmão Aarão falará por ele e que Ele, o Deus de Israel, aquele “Eu Sou” estará em sua companhia. Se lhe perguntarem quem lhe deu essa incumbência, ele deveria responder: “Eu Sou”, aqui me mandou vir para libertar Seu Povo.
Moisés separou-se de sua família e voltou ao Egito. Entrou em contato com sua gente e advertiu do que iria acontecer. Aqui temos a Prova de Deus em relação ao povo, pois a grande maioria creu na revelação de Deus a Moisés, principalmente quando ele e seu irmão Aarão foram falar ao Faraó e o ameaçar dos castigos que Deus infligiria ao Egito e quando estas pestes castigaram duramente o povo egípcio, e não aos hebreus. Foram sete pestes que, como sabemos, culminaram, com a terrível sétima peste, a qual eliminou da face da Terra, pela morte, a todos os primogênitos, desde o filho mais velho do Faraó, e primogênitos de todo o povo, e também, os primogênitos dos animais dos egípcios, excetuando-se o povo hebreu e seus animais. O anjo da morte respeitava as casas marcadas com o sangue de um animal sacrificado ao Deus de Israel.
Uma outra grande Prova que Deus impôs a Moisés e ao povo Hebreu, foi a travessia do Mar Vermelho, na saída do Egito. Quarenta anos, esse povo perambulou pelo deserto do Sinai guiados por Moisés, em direção à Terra Prometida, a Terra de Canaã. Durante esses quarenta anos, muitas outras Provas de Deus, foram impostas a Moisés e ao povo. É justo que se diga que o Taumaturgo Moisés, foi justo e fiel em todas as Provas, o que nem sempre aconteceu com o povo, que tinha o coração duro, como diz a Bíblia. Quando o povo reclamou de fome e sede, duvidando de Deus, apesar de terem sido testemunhas e protagonistas de todas as maravilhas, as pragas que dobraram o poder do Faraó e a fantástica travessia do Mar Vermelho, Moisés não duvidou e rogando “Àquele que É”, Seu auxílio, veio o maná e do deserto brotou água fresca.
No Monte Sinai, Moisés recebe de Deus os Dez Mandamentos (o mais perfeito Código de Leis que o mundo jamais conheceu, pois teve como autor o próprio Senhor). E quando desce a Montanha, com a fisionomia transfigurada pois vira Deus “face a face”, e no pé da montanha encontra seu povo, a adorar ídolos egípcios e a se banquetear, inclusive com a adesão de seu irmão Aarão, completamente esquecidos de sua identidade de “o Povo de Deus”, “Aquele que é, do Eu Sou”.
Moisés apesar de não ter tido culpa, do que aconteceu, enfurecido quebra as Tábuas Sagradas, mas como o responsável pelo povo de Deus, Esse castigou-o com uma última Prova, da qual ele não pode livrar-se. Foi de longe que ele avistou a Terra Prometida, pois Deus levou-o ao Seio de Abraão. (Antes, entretanto, lhe concedera novamente as pedras com os Dez Mandamentos).
v
Deus castigou Moisés, privando-o de chegar à Terra Prometida, devido às defecções de seu povo, do qual, ele era o responsável. Moisés morreu, vendo, de longe, a conquista de sua Terra, pelo seu general e sucessor, Josué. A Terra não estava desabitada, e sim povoada por vários povos, como os próprios Cananeus, os moabitas, os filisteus, os fenícios e muitos outros. Nas primeiras batalhas, Moisés, ainda vivo, do cimo de uma montanha, via e abençoava a Josué e seus guerreiros. Enquanto ele mantinha os braços elevados, abençoando-os, os israelitas, comandados por Josué, obtinham vitória; quando ele baixava os braços, por cansaço, os seus exércitos eram derrotados. Isso ficou tão evidente, que, dois auxiliares de Josué foram incumbidos de segurarem os braços de Moisés, que caiam pelo cansaço. Essa foi a última Prova de Deus a Moisés, antes de conduzi-lo ao “Seio de Abraão” (É preciso que aqui seja assinalado algo muito importante: Por que “Seio de Abraão”? Esse é o nome que é dado, pela Sagrada Escritura, ao lugar para onde se dirigiam os justos, após a morte, uma espécie de Limbo. Por que não, o Céu? Porque, por causa do Pecado Original, todos os justos que morriam, apesar de serem justos, não tinham sido redimidos ainda, pelo sangue do Cordeiro de Deus, (Agnus Dei) Jesus, o Filho de Deus, o Verbo de Deus, que se fazendo Homem, pode apagar os pecados dos homens, pela sua morte de Cruz, homens do passado, do presente em que Ele veio ao mundo, e do futuro. Por isso, no “Credo” é dito: “ foi crucificado, morto e sepultado, desceu à Mansão dos Mortos, ressuscitou ao Terceiro Dia, etc...” Essa “Mansão dos Mortos” é o “Seio de Abraão”, para onde se dirigiu o Filho de Deus, para liberá-los e conduzi-los ao Céu, após Sua Morte de Cruz. Alguns teólogos chegam a afirmar que até S. José, que morrera bem antes de seu Filho nutrício, estava também lá, esperando a Redenção; portanto Moisés também lá se encontrava, e não no Céu).
VI
Com a morte de Moisés, Josué foi vencendo os povos que habitavam a Terra Prometida, e tornou-se, como sucessor de Moisés, o chefe, o Dirigente do Povo de Deus. Mas Josué também morreu e então, o povo dividiu-se. As doze Tribos dos doze filhos de Jacob foram ocupando as terras já conquistadas, É a época, chamada dos Juizes, onde salientaram-se Sansão, Débora, Gedeão, etc... que também foram submetidos a Provas de Deus, mas de menor vulto.
Por volta do XI século a.C., um dos Juizes, que também era Profeta , chamado Samuel, foi consultado pelos outros Juizes e pelo povo em geral, se não seria melhor para eles, (que estavam divididos em tribos, e que portanto eram, às vezes, derrotados separadamente pelos inimigos), se unirem todos, tendo um Rei para comandá-los, como tinham os outros povos. Samuel irritou-se profundamente com essa sugestão, pois explicou-os que o Rei deles era o próprio Deus de Israel, “Aquele que É”, o Único e Verdadeiro Deus. Responderam que sabiam disso, mas que precisavam de um Rei de carne e osso, que os unisse e comandasse seus exércitos, e propunham a Coroa ao próprio Samuel. Esse, depois de acusá-los de infiéis, de homens de coração duro, de ingratos a Javé, acabou cedendo. Mas, não queria a Coroa. Ele era um Profeta um Homem de Deus, e não podia cuidar das coisas dos homens. Que o Rei de Israel seria escolhido pelo próprio Senhor Deus. E para isso, para saber quem deveria sagrar Rei de Israel, Samuel, rezou muito, fez muita penitência e jejum. Essa foi a grande Prova de Deus a Samuel. Finalmente, ele recebeu de Deus a indicação. O Rei deveria ser Saul. Samuel sagrou, ungiu com azeite e coroou Saul (cerimônia essa que serviu de protótipo a todas as coroações de Reis e Imperadores judeus e cristãos, desde aquela época até hoje). Saul, de fato, solucionou o grande problema do povo hebreu. Com as tribos reunidas em um só Estado, foi mais fácil vencer os inimigos. Pode-se dizer que Samuel e Saul foram os fundadores do Reino de Israel (não da Nação de Israel, que já tinha sido constituída, desde a escravidão no Egito, mas do Estado de Israel, Reino politicamente organizado, sim).
O poder entretanto subiu à cabeça de Saul e ele passou a não mais ouvir os conselhos de Samuel, sem entretanto deixar de respeitá-lo, como o Homem de Deus. Uma prova disso, consiste na seguinte passagem. Saul estava preparado para combater os filisteus, mas não partia para o combate, sem antes, receber a Benção do Profeta e assistir seu ritual sacrificando ao Deus de Israel (o que hoje seria a Missa). Mas Samuel não aparece (havia morrido e Saul não sabia). Os generais impetuosos, querem assim, mesmo, iniciar o combate, e argumentam com Saul, que talvez Samuel fosse um falso Profeta. Ouvem essa resposta do Rei: “Se Samuel é um falso Profeta, eu sou um falso Rei”.
A partir desse momento tem início à decadência do Reinado de Saul e a ascensão de David. Samuel, antes de morrer, tinha recebido de Deus a missão de ungir Rei de Israel, a um filho de Jessé. Samuel visita Jessé, que tinha muitos filhos homens, e lá, Deus lhe indica para ungir o jovem pastor David o mais jovem dos filhos de Jessé. A partir daquele momento David era o “Rei de Direito de Israel embora Saul continuasse a ser o” Rei de Fato “. Saul entra em depressão com a morte de Samuel, e um de seus filhos descobre o pequeno David, que além de pastor, era poeta e músico, para com as palavras e a lira (os Salmos) socorresse o pai doente. David dá nova vida a Saul e com o tempo, e principalmente com o episódio de sua vitória sobre Golias, o herói e gigante filisteu, David cresce em prestígio, no povo de Israel. Quando ele chegava das batalhas o povo bradava: “Saul venceu mil inimigos, David 10 vezes mil”. David tornou-se o Condestável de Israel (embora soubesse que era Rei, mas não ousava combater Saul, pois esse era também ungido do Senhor) e casou-se mesmo com a filha de Saul, sua primeira esposa. Saul, enciumado pelo prestigio de David, tenta matá-lo. David foge de seus perseguidores e essa é grande Prova de Deus a David. Ele sabe que é rei, ungido pelo Profeta, mas Saul também fora ungido e portanto David não Vai contra seu sogro. Essa Prova de Deus, podemos chamá-la de “Fidelidade Àquilo que era sagrado”. A unção era como se fosse um Sacramento. Logo sagrada e David a respeita, foge da perseguição de Saul, e deixa (já que ele também fora ungido) nas mãos de Deus, o seu futuro. Em batalha contra filisteus Saul e sua progênie masculina é toda eliminada pelo inimigo. David entra triunfante em Jerusalém, como Rei de Israel. Tinha sido fiel a Saul, até o fim, nunca levantou a espada contra seu Rei, o ungido do Senhor, embora ele também o fosse, e assim mereceu ser o Grande Rei David, cuja descendência reinou séculos em Israel e depois em Judá. Mas a sua maior glória ele não a conheceu em vida. Foi dele, de sua descendência, que Deus escolheria uma santíssima Virgem para ser a Mãe do Filho de Deus, e a colocaria sob a guarda de um também Santo Homem “José ben David” (São José, também descendente de David), para a Redenção da Humanidade.
VII
O Rei, Profeta e salmista, David, teve muitos filhos, de várias mulheres, mas, quem herdou o seu trono foi o filho de seu maior pecado, o futuro Rei, Salomão. Por que o seu maior pecado? David já tinha sido casado várias vezes (na época a Lei de Deus permitia, como já explicamos, em capítulo anterior, principalmente no caso de um Rei). Entretanto, apaixonou-se loucamente por Bertsabeth, pois a tinha visto nua, a banhar-se, embora, de longe, mulher de grande beleza, porém casada. E casada com Urias, general de seus exércitos, que nem judeu era, e sim hitita, mas que daria a vida por seu Rei, pois amava David, como seu Rei. David, perfidamente, manda o Comando em Chefe designar Urias para o Comando do “Front”, na frente de seus exércitos, em guerra.
O que David pretendia, de fato, acontece, Urias morre em combate. E Bertsabeth está viúva e portanto livre para casar-se com David. Deste casamento nasceu Salomão, o que, por várias circunstâncias herdará o trono (são muitas vezes, intangíveis os caminhos do Senhor) e se tornará, pela morte do Pai, o grande Rei Salomão. Esse Rei, que teve grandes momentos em seu longo reinado, momentos de glórias e de riquezas, momentos de vitórias militares e momentos de grandes pecados, até mesmo a idolatria, esse grande Rei, passou por uma terrível Prova de Deus. Prova essa, da qual ele se saiu muito bem, Prova de Justiça, e que, por causa disso, até hoje, alude-se “à justiça salomônica”, quando um Processo de Direito consegue fazer Justiça, entre partes litigantes . Duas mulheres compareceram à frente do Rei, com uma criança ainda pequena, e as duas mulheres alegavam ser a mãe verdadeira da criança. Salomão com a calma e sobriedade de um Rei e Juiz, ordena a seus ajudantes: “cortem a criança ao meio e dêem metade para cada uma”, diante de tal ordem, uma das mulheres grita, em desespero, e clama: “podem dar a criança a ela, mas não a matem! Salomão, imediatamente diante desse gesto, reconhece a verdadeira mãe, e determina que a ela, a que impedira a morte da criança, lhe fosse entregue a criança. Deus pôs à Prova a Inteligência e a Justiça do Rei!
Deus também pôs Salomão à Prova na fidelidade a Ele. Houve momentos, principalmente os momentos de glórias e riquezas que, como já dissemos, Salomão, tentado pelo dinheiro pela vanglória, adorou outros deuses, ídolos de outros povos, ou seja, adorou o demônio. Mas veio depois o arrependimento e a penitência e Salomão voltou a ser fiel ao Deus de Israel, “Aquele que É”.
FIM.



quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O HOMEM BRASILEIRO E A VERDADE


O homem brasileiro e a Verdade

• Trabalho não-publicado - 01/02/2007 •
Otto de Alencar de Sá-Pereira

Lecionávamos, há alguns anos, em uma turma de Direito, quando, tomamos uma posição, no meio da aula, bastante exuberante, quase violenta, na defesa das Verdades da Santa Igreja de Deus. Afinal, estávamos em uma Universidade Católica (de Petrópolis). Lembramo-nos que dissemos: “Uma Religião que tem a petulância a audácia e a coragem de nos ensinar que um pedaço de pão e o vinho de um cálice, consagrados por um Padre Católico, se transubstanciam no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, e o Mesmo sendo Deus como o Pai e o Espírito Santo, logo Senhor de todo o Universo, esta Religião ou é a Única Verdadeira, ou a maior farsa de toda a História da Humanidade”.
A turma ficou boquiaberta e reinou um silêncio sepulcral. Quase todos os alunos eram católicos, mas, acreditamos, nunca tinham raciocinado a esse respeito. Falávamos sobre a Cultura, sobre a União Hipostática entre nosso corpo e nosso espírito, sobre as potências da alma, racionalidade, sensibilidade e vontade, sobre a essência do Ser Humano, feito à imagem e semelhança do Ser Absoluto, que é Deus, sobre a ressurreição dos corpos, à semelhança da própria Ressurreição de Jesus Cristo, etc, etc, quando por uma janela aberta da sala de aula, que dava sobre o corredor, o qual situava-se sobre a capela de Nossa Senhora de Sion, e portanto sobre o Sacrário, onde residia o Rei dos Reis, o Criador e Redentor Nosso, vimos, como dizíamos, um casalzinho de alunos, namorando, no corredor, de tal maneira unidos e amalgamados, em uma só matéria, que, de repente aquilo nos enfureceu, em uma santa indignação. Já tínhamos, inúmeras vezes, ao passarmos pelos corredores, presenciado situações iguais, e sempre ficávamos chocados, principalmente por tratar-se de uma Universidade Católica, onde havia ao Centro, uma capela, sempre com o Santíssimo presente. Mas, nesse dia, quando tratávamos de assuntos tão elevados, e vimos aquele deboche, aquela falta de vergonha, a poucos metros do Sacrário, perdemos o equilíbrio próprio de um professor, e vociferamos, sem que o casal nos ouvisse, aludindo ao que estávamos vendo, seguido da frase, antes aqui reproduzida. A indignação foi grande e seguiu-se de considerações pela falta de Fé, de Fé Verdadeira, por isso intitulamos esse artigo, como está no cabeçalho. Porque não é só na nossa Universidade, nem só nas outras universidades, é em todo o Brasil, infelizmente. Na realidade é em todo o Mundo. O homem contemporâneo vive como se Deus não existisse. A falta de Fé, Esperança e Caridade, é desconhecimento da Verdade. Tomando o nosso Brasil, em particular, podemos observar, o que dizíamos, de Norte a sul, de Leste a Oeste; em todas as classes sociais e especialmente, e isso é calamitoso, nas classes mais cultas, mais abastadas, mais eruditas. A Religião para esses é um folclore, às vezes interessante e útil, mas quase sempre maçante. O que Cristo ensinou serve para enfeitar algumas ocasiões festivas ou fúnebres de suas famílias, mas a verdade não é conhecida, e, quando conhecida, não é praticada. São os milhões de católicos de carteirinha, existentes, infelizmente, em nosso Brasil. Quando há Fé, essa é mal interpretada. Em nossa Universidade, existe, à direita da porta principal da capela, um belíssimo crucifixo, quase de tamanho natural. É edificante ver um aluno rezar aos pés desse crucifixo, abraçando os pés do Cristo. Mas esse mesmo aluno, ao entrar na Capela, não faz a menor menção de reverenciar o próprio Cristo, presente no Sacrário. É claro que, do ponto de vista sensível, o crucifixo impressiona mais. Mas aquele que tem Fé, deve atentar que o crucifixo é só uma escultura d’Aquele, que no Sacrário, nas hóstias consagradas, no Santíssimo Sacramento, apresenta-se na Sua Realidade de Corpo, Sangue Alma e Divindade. O homem não crê mais nessa Verdade, ou Melhor, na Verdade, pois Deus é a Verdade. Aquele que não é ateu, prefere dizer que Deus está em toda parte, no Céu, na Terra, em todo o Universo e até dentro de nós. E é verdade! Mas então, porque, na Última Ceia, Jesus o Homem-Deus, instituiu a eucaristia? Evidentemente, Ele não o fez sem um sentido, sem um propósito, porque Deus não faz nada sem um especifico propósito, e sempre para o nosso bem, pois Ele nos ama quase tanto quanto à Sua Mãe Santíssima. Foi por um infindável amor que Ele instituiu a Missa, e no Seu cerne, a repetição do Sacrifício do Calvário, com a Eucaristia e a Sua consumição, para nos alimentar espiritualmente. Em outros tempos, o homem cria nessas verdades. Um fidalgo espanhol, de pouco mais de vinte anos, no século XVII, foi, como quase sempre fazia, a uma taberna, beber e cair na esbórnia. Levava sua espada à cinta, seu colarinho “plissé” seu colete de couro suas calças bufantes, suas botas e chapéu de plumas. E no coração uma verdadeira Fé. Era jovem, não era santo, mas praticava sua religião. Passou parte da noite, bebendo, comendo, dançando e brincando, e a outra parte, no sobrado, na cama com uma prostituta. Quando viu, o sol, raiar, juntou seus pertences, vestiu-se mal ou bem, mas não esqueceu nada, muito menos o chapéu de plumas e o cinturão com a espada. Saindo da bodega, meio vivo, meu morto, ainda com sono de vinho, mas quase lúcido, deparou-se com uma procissão que passava, com um crucifixo à frente levado por um seminarista, vários coroinhas, carregando velas e tocando as sinetas, e no centro um pálio carregado por homens da Congregação do Santíssimo Sacramento, e debaixo dele um Sacerdote que trazia, circunspecto um cibório, onde levava o Santíssimo, para dar comunhão a doentes. O jovem fidalgo, tirou rapidamente o chapéu e pôs-se de joelhos ainda cambaleante, para adorar o seu Deus! Eis que, de uma esquina, surge um grupo de mouros islamitas (ainda os havia muitos na Espanha, nessa época) que atacam a procissão, com a intenção principal de profanar o Santíssimo Sacramento e matar o Padre e os coroinhas. Os mouros eram uns vinte homens. O jovem figalgo, sem titubear um instante, desembainha sua espada e avança violenta e corajosamente sobre os mouros. Matou uns dez, mas acabou morto. E morto, em defesa de sua Fé. O fato foi logo conhecido, e a Igreja imediatamente abriu um Processo de Canonização por Martírio. O que é o Martírio? É o Batismo pelo Sangue derramado, que apaga todos os pecados. O jovem fidalgo, no espaço de poucos meses, passou da cama de uma prostituta, para os altares das igrejas, à devoção dos fiéis; Hoje, quando um Padre ou Ministro ou Ministra da Eucaristia, passa pelas ruas, tendo na bolsa, o Criador do Universo, ninguém fica sabendo, ninguém o acompanha, nem ao menos, um castiçal e orações, nada, nada, e... É Deus que passa.
Para onde caminha esse Mundo e nele o nosso Brasil? Entretanto, graças às orações penitências e sacrifícios de uns poucos, o homem brasileiro, talvez volte a conhecer a Verdade, pois inúmeras são as Congregações e Institutos católicos, que ultimamente, estão surgindo no Brasil, atendendo à frase de N. Senhora, em Fátima: “No fim o Meu Imaculado Coração Triunfará”. FIM........



quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

D.MANUEL PEDRO DA CUNHA CINTRA

D. MANUEL PEDRO DA CUNHA CINTRA

• Trabalho não-publicado - 01/10/2006 •

Otto de Alencar de Sá-Pereira

Eu tinha 16 (dezesseis) anos, e como todos os jovens de famílias conhecidas como ilustres, ou pelo dinheiro, ou pela tradição ou pela educação, passávamos nossos longos verões na aprazível Petrópolis, naquela época ainda muito mais que hoje. A Missa obrigatória dos domingos era a de 11 horas na Catedral. O povão petropolitano ainda chamava a Catedral de Matriz, ou porque ainda não se tinha habituado, ou não tinha sabido que Petrópolis agora era uma Diocese.
A aristocracia petropolitana claro sabia que o Santo Padre Pio XII pela bula Pastoralis qua urgemur, de 13 de abril de 1946, erigira a nossa Cidade Imperial à categoria de Diocese, que não só compreendia esse Município, mas também Teresópolis, Magé, Duque de Caxias, parte de Paraíba do Sul e parte de Três Rios. E, a 9 de janeiro de 1948, Sua Santidade escolhera Mons. Manoel Pedro da Cunha Cintra para seu primeiro Bispo Diocesano. Os cariocas estavam mais bem informados, pois a Missa das 11 horas era sempre, ou quase sempre, celebrada por Dom Manoel Pedro, que ficou mais conhecido por D. Cintra. Depois da Missa a cariocada jovem ia para as piscinas ou quadras de tênis, em mansões que suas famílias possuíam aqui em Petrópolis. Seguiam-se vastos almoços que duravam até às 15 ou 16 horas. Depois do almoço, voltavam todos para suas respectivas casas e combinavam encontrarem-se, mais tarde, no D’Ângelo, para talvez, um cineminha, depois da chuva. Essa, invariavelmente, começava entre 16h30min ou 17 horas e durava uma hora ou hora e meia.
Em um desses domingos de 1948 — talvez me equivoque do dia da semana, mas deve ter sido domingo, às 11 horas —, assistimos a uma das mais belas cerimônias litúrgicas de nossas vidas. De repente, o órgão e um belíssimo coral entoaram cânticos grandiosos, de Handel ou Bach; todos se puseram de pé e a Catedral estava repleta e vimos entrar enorme cortejo iniciado por um belíssimo crucifixo de prata levado por um seminarista e seguido por grande número de seminaristas, padres e monsenhores, todos com vestes romanas, com a imponência da Igreja pré-conciliar (imponência essa que, graças a Deus, vem retornando, aos poucos) e seguidos por uma figura deslumbrante, de verdadeira grandeza episcopal. Passo lento, manto roxo, com calda, mitra, báculo na mão esquerda, Sua Excelência Reverendíssima entrava em sua Catedral para a cerimônia de entronização, olhar dirigido para o alto, para Deus, rosto impávido, misto de santo e príncipe, figura altamente aristocrática!
Na medida que passava, as pessoas se ajoelhavam e recebiam a bênção pastoral de sua mão direita, enluvada e com magnífico anel de ouro com o rubi da dignidade episcopal. Seguiam-se, naturalmente, Missa Solene, a entronização propriamente dita, uma belíssima homilia, pronunciada do púlpito gótico, que infelizmente não é mais utilizado. Mas os fieis que lotavam a Catedral, nesse dia, eram talvez, compostos mais por cariocas do que por petropolitanos. Pelos menos, assim nos pareceu, pois conhecíamos muita gente ali presente, todos do Rio. Haveria petropolitanos? Certamente que sim, mas nós não os conhecíamos. Quem seriam eles? Pais e avós, talvez, de futuros alunos meus, pois naqueles longínquos 1948, eu não poderia nem cogitar que, vinte e dois anos mais tarde, lecionaria na Universidade Católica de Petrópolis. Naquele momento eu nem imaginava que um dia viria a ser professor e professor de uma Universidade, ainda não criada, e que seria criada por aquela pessoa, de quem eu recebera a bênção genuflexo, e que essa bênção me levaria a trabalhar nessa UCP, com amor, silêncio e dedicação, por 36 anos de minha vida, pelo menos até agora, 2006.
O Prefeito Castrioto, Dr. Guilherme Guinle, e muitos outros mecenas, viriam ajudar a criá-la, em 1953, mas a alma da Universidade era, sem a menor dúvida, D. Cintra. Sem ele nada teria sido feito. A Universidade, o Seminário Diocesano e muitas outras de suas realizações tinham como meta conquistar as ovelhas de sua diocese e não a nós cariocas, que já o conhecíamos, pois ele pertencia à aristocracia paulista. Conquistar e evangelizar; evangelizar e santificar. Esse era o principal cuidado do nosso Bispo, que tinha sido sagrado, a 28 de março de 1948 na Basílica de Nossa Senhora do Carmo, em São Paulo para onde ilustres petropolitanos se tinham deslocado, para assistirem à cerimônia. Logo depois de sagrado, D. Manuel Pedro transferiu-se para Petrópolis, aqui chegando a 05 de abril, sendo recebido no Quitandinha por grande comitiva: o Prefeito Flávio Castrioto, o Presidente da Câmara Municipal e pelos Monsenhores Francisco Gentil Costa e Barros Uchôa, de Niterói, etc... Às 15 horas encontraram-se, os que estavam em Petrópolis, com os que acompanhavam Sua Excelência Reverendíssima e dali seguiram para a Câmara Municipal, onde o Prefeito pronunciou uma belíssima saudação e D. Cintra deu a sua primeira bênção pastoral. Naquela época feliz a população pretropolitana era quase toda católica — como, aliás, acontecia no Brasil todo — com ligeiras exceções de alguns descendentes de imigrantes alemães, do século XIX, que mantinham-se protestantes, mas que eram um mosquitinho na sopa brasileira. A bênção foi portanto dirigida a 99,9% dos habitantes de Petrópolis. Dias depois D. Cintra seria entronizado, como já contamos, linhas acima.
Nascido a 11 de novembro de 1906, em Piracaia, interior de São Paulo, de linhagem aristocrática paulista, como já mencionamos, ainda muito jovem sentiu sua vocação para o sacerdócio. Entrou para o Seminário de Botucatu, onde freqüentou não só o seminário menor, mas também o maior. Seus superiores, surpreendidos por seus dotes de estudo e de vida espiritual, resolveram enviá-lo para Roma, para a Pontifícia Universidade Gregoriana, onde obteve o grau de Doutor, tanto em Filosofia como em Teologia.
Ordenado sacerdote na Basílica de S. João de Latrão (a mais antiga das quatro basílicas romanas) em 26 de outubro de 1930, voltou para o Brasil em 1931, onde foi logo nomeado Cura da Catedral de Cafelândia (hoje Diocese de Lins).
Sua vida espiritual foi tomando sempre maior vulto, em função de seus estudos, de sua prática sacerdotal, principalmente no púlpito e no confessionário, onde seus fiéis o procuravam sem cessar, formando filas infindáveis, em ambos os lados, que obrigavam o Padre Manuel Pedro a permanecer horas e mais horas ouvindo confissões e direcionando seus fiéis para a santificação que é, em última analise, a verdadeira função do sacerdote. Foi logo notado pelas autoridades eclesiásticas de São Paulo, que quiseram aproveitá-lo para outras funções. De 1934 a 1939 lecionou Filosofia e Teologia no Seminário Central de São Paulo, até que em 1940 foi eleito Reitor do Seminário Central do Ipiranga.
Professor Jeronymo Ferreira Alves Neto, que dedicou um dos capítulos de sua magnífica obra “Brasileiros ilustres em Petrópolis” (da qual me servi para obter grande parte de dados históricos da vida de D. Cintra), a D. Manuel Pedro da Cunha Cintra, escreve em dado momento do artigo de seu livro, que “D. Cintra se tornou o Pai Espiritual que, ao ministrar aos jovens seminaristas os conhecimentos científicos e a mensagem evangélica, dirigia-se mais ao coração do que ao espírito impondo-se pela Bondade e governando pelo Coração”.
Nessa altura, Padre Manuel Pedro foi feito Monsenhor pelo Santo Padre Pio XII e passou a exercer funções cada vez mais destacadas, na vida sacerdotal, como o de Cônego Efetivo da Catedral de Ribeirão Preto, Juiz Pós-Sinodal do Tribunal Eclesiástico da Arquidiocese e visitador apostólico dos Seminários do Brasil, nomeado pela Santa Sé em 1944.
Nessa passagem de seu livro, Professor Jerônimo faz a seguinte observação: “para exercer tão elevadas funções era preciso possuir as qualidades extraordinárias de saber, prudência e peregrinas virtudes”.
Monsenhor Cintra visitou, em apenas dois anos, todos os seminários do Brasil, corrigindo defeitos encontrados e tentando melhorar o que já havia de bom no ensino e na vida espiritual. A Santa Sé, observando lá de Roma, tantas qualidades e virtudes, e sabedora dos desejos dos petropolitanos de possuírem o seu Bispo, uniu essas virtudes e desejos e, como já escrevemos, em 1946, foi criada a Diocese de Petrópolis e em 1948, Monsenhor Cintra tornou-se o primeiro Bispo de Petrópolis. Sua ação pastoral, em Petrópolis foi das mais eficazes e edificantes, durante os 36 anos nos quais dirigiu nossa Diocese. Desde 9 de janeiro de 1948 a 29 de fevereiro de 1984, quando então, obedecendo às novas normas da Santa Sé Apostólica, de que os Bispos devem renunciar ao atingirem 75 anos, D. Cintra tornou-se Bispo Emérito de Petrópolis. Ele completara 75 anos em 1981, mas o Santo Padre João Paulo II só aceitou sua renúncia em 1984. Como Bispo Emérito passou a viver e a lecionar no Seminário de Nossa Senhora do Amor Divino por ele criado.
Além da Universidade e do Seminário seu governo da Diocese foi fecundo em outras realizações, como, por exemplo, a, criação de 17 novas paróquias, a campanha “Fé, Cultura e Assistência” que realizou inúmeros benefícios, como o Abrigo par à velhice “Lar João de Deus”, a “Legião de Maria” e muitas outras obras monumentais, sem mencionarmos seu legado espiritual literário em homilias, cartas pastorais e circulares.
D. Cintra celebrou seu jubileu de ouro de Ordenação Sacerdotal em 1980, com Missa Solene e muitas outras solenidades, muitas das quais participamos na qualidade de Professor da Universidade Católica de Petrópolis. Nessa ocasião pudemos lembrar daquela bênção que recebemos, com 16 anos, em 1948, quando o grande Bispo de Petrópolis adentrou solenemente em sua Catedral, onde hoje jaz em seu sepulcro, em torno do Altar Mor de S. Pedro de Alcântara desde sua morte em 30 de março de 1999, quando Nossa Senhora do Amor Divino veio buscá-lo, para ser um de seus caudatários, na Corte Celeste.
FIM

UM REI CATÓLICO

Um Rei Católico

• Trabalho não-publicado - 01/10/2006 •

Otto de Alencar de Sá-Pereira

Nos exemplares dos dias 8 e 9 de fevereiro de 2006, do Jornal O Globo, na seção intitulada “O Mundo”, encontramos a terrível notícia do assassinato do Padre católico, Andréa Santoro, de 61 anos, italiano, pároco de Trebizonda, na Turquia. Poucos dias antes de sua trágica morte, ele havia escrito ao Santo Padre Bento XVI, pedindo que, em sua viagem à Turquia, programada para novembro desse ano, não deixasse de visitar sua Paróquia de Trebizonda (nome que nos faz reviver antigas passagens históricas da Idade Média, do tempo das Cruzadas e do Império Bizantino).
O Padre Andréa foi morto a tiros, por um jovem islâmico de 16 anos, recrutado por um grupo extremista, como vingança das charges ofensivas a Maomé, publicadas em diversos jornais europeus e americanos.
A resposta do Santo Padre ao nefasto ocorrido, foi declarar que “o Padre Andréa era um silencioso e corajoso servidor do Evangelho”, - “que o sacrifício de sua vida contribua para a causa do diálogo entre as religiões e a paz entre os povos”.
Entretanto, o Ministro da Reforma, da Itália, Roberto Calderoli, sugeriu que o Papa liderasse uma Cruzada, naturalmente Cristã, contra o Islã, assim como haviam feito S. Pio V (1566-1572), com a vitória dos cristãos, na batalha naval de Lepanto, contra enorme frota turca, que pretendia invadir a Europa, ou então Inocêncio XI (1676-1689), que conseguira que o Imperador do Sacro Império Romano Alemão e o Rei da Polônia, Poniatowski, vencessem os turcos otomanos que já cercavam Viena e que, com o tempo, mais tarde, foram expulsos totalmente da península balcânica. (É preciso lembrar que a queda do Império Bizantino em 1453, com a tomada de Constantinopla pelos turcos, deu início à invasão islâmica, em todos os países balcânicos, tanto que, até hoje, algumas dessas nações, ainda se conservam muçulmanas, como, por exemplo, a Bósnia-Herzegovínia e a Albânia).
Vejamos, nesse fato histórico, um contraste: o jovem islâmico, ao atirar no Padre Santoro, que terminara de consagrar o Corpo e o Sangue de Cristo, pois estava no fim de sua Missa, ao atirar, gritou: “Alá é grande!” A essa ação ignominiosa, a resposta da Santa Igreja saída dos lábios do Vigário de Cristo, foi plena de doçura e paz. Apesar dessa resposta, verdadeiramente sublime, o Ministro da Reforma, da Itália, quereria voltar aos tempos de guerra armada, entre cristãos e muçulmanos? Em uma coisa ele está certo: “os islâmicos mudaram sua estratégia; antes usavam só terroristas, agora movem as massas e atacam embaixadas”.
Mas...Daí voltarmos aos tempos das cruzadas e das reações da Igreja e de Reis Cristãos contra os islamitas, nos século XVI e XVII, há um abismo!
Esse abismo não é só histórico, mas, também psicológico. Nos tempos medievais, os turcos, que se tinham convertido ao Islã, graças aos árabes, de repente consideraram os árabes muito benévolos, em relação ao mundo cristão (eram principalmente os árabes que faziam a ligação comercial entre Ocidente e Oriente – o que permitia aos cristãos visitarem os Lugares Santos, etc), e conquistaram o Império Árabe do Oriente, dos Abássidas, cortando totalmente a comunicação da Europa com o Oriente (cristão bom é cristão morto).Naturalmente isto causou a indignação contra os turcos, sendo o pretexto das sete Cruzadas, que se sucederam desde o século XI até o século XIII, inicialmente movidas por um espírito totalmente religioso, e com o tempo, levadas por interesses também políticos, econômicos e sociais. A última delas, a 7ª, do século XIII, causou a morte do grande Rei de França, S. Luis IX.
Já nos séculos XVI e XVII, com as vitórias cristãs de Lepanto (século XVI) e das portas de Viena (século XVII), os cristãos estavam se defendendo em legitima defesa. Se nos séculos das Cruzadas, eles tinham sido os atacantes, agora eles eram os agredidos. Já muda de figura!
Hoje, os cristãos voltam a ser os agredidos e por que? Na realidade, na triste realidade atual, o percentual de muçulmanos que leva sua religião a sério é muitíssimo maior que o de cristãos, principalmente os cristãos europeus e norte-americanos, que não fazem só charges ofensivas a Maomé mas que também o fazem do próprio Cristo, de Maria e dos anjos e santos, e pior ainda, filmes e livros blasfemos, dos quais os piores foram “A última tentação de Cristo” e o ridículo “Código Da Vinci”.
Os cristãos não crêem mais em Deus! Se Cristo fosse vítima de charges em Damasco, ou Beyruth ou Badgad, não haveria, tenho certeza, a menor reação dos cristãos. Haveria certamente uma nota reprobatória do Vaticano e os católicos integristas e os mais tradicionais e piedosos, talvez fizessem alguns atos pacíficos de desagravo a Jesus e Maria, com procissões, missas e ladainhas. E essa seria a reação justa, mas infelizmente, estes católicos, constituem hoje uma minoria no mundo cristão. No Ocidente moderno vive-se, ou não tomando em consideração a doutrina cristã, ou como se Deus não existisse. “Hélas, malhereusement”! Já na Idade Média e mesmo no século XVI, especialmente na Espanha, a terra do grande Rei católico, as atitudes eram outras.A batalha de Lepanto, contra a invasão dos turcos na Europa foi vitoriosa graças às orações, jejuns, penitências e missas que S. Pio V, o Papa, Felipe II o grande Rei da Espanha, o Rei Católico, e seu general-almirante D. João d’Áustria, (tio bastardo do Rei) ordenaram que fossem praticados por todos os soldados e marinheiros cristãos. E veio a vitória! Os turcos foram massacrados. A notícia da vitória católica só chegou a Roma alguns dias depois, mas na hora da vitória, S. Pio V recebeu um aviso do Céu, e ordenou o badalar de sinos de todas as igrejas de Roma.
Felipe II rezava na sua capela do Escurial, quando chegou à boa nova da vitória de Lepanto. Quando o Rei estava em oração, nenhum de seus palacianos, nem mesmo da Família Real, ousava interrompê-lo. Quando finalmente terminou suas preces, os nobres aproximaram-se dele, em reboliço, para lhe transmitirem a notícia alvissareira. Ele, entretanto, impávido, sem mudar sua expressão facial, respondeu: “Ya lo sabia” (já sabia). Como era possível que ele soubesse? Só mesmo, também, por meio de uma comunicação sobrenatural. Depois, ordenou que se badalassem os sinos e se celebrassem vários “Te Deum” e Missas em Ação de Graças. Quem foi esse Rei, que injustamente, a Enciclopédia Britânica tem a petulância de declarar, “o menos devasso dos Reis europeus do período Renascentista? Devasso? Um Rei quase santo, isso sim”.
Já sua origem dinástica, genealógica, o encaminhava para uma vida santa. Seu pai, fora o Imperador Carlos V do Sacro-Império-Romano-Alemão e Carlos I da Espanha, homem de sua época, mas também um soberano que não vivia sem Deus. A prova está nos fatos que precederam seu falecimento: sentindo que ia morrer, abdicou da coroa espanhola para seu filho Felipe II e de suas possessões germânicas para seu irmão Fernando, conseguindo que esse o sucedesse como imperador do Sacro-Império. Depois dessa dupla abdicação, retirou-se para o mosteiro de Yuste, fez-se frade, onde veio a morrer poucos anos depois. Carlos V dividira em duas partes, suas possessões hereditárias, pois, dizia-se, na época, que o sol nunca se punha sobre seus domínios. E era verdade, pois, de seu pai Felipe I de Áustria (Habsburgo) ele herdara as nações germânicas e a Coroa Imperial. De sua mãe Joana de Aragão e Castela, vinham os feudos ibéricos reunidos nos Reinos de Aragão e Castela, de seus avós, os Reis Católicos, Fernando e Isabel, de onde provinham também às terras de Flandres, Nápoles e Sicília, o ducado de Milão, e, além mar, quase todo o Continente Americano, e possessões africanas, asiáticas e na Oceania, (as Filipinas).Já Felipe II, de sua mãe recebera uma rígida e piedosa educação católica, pois a Imperatriz Isabel era nascida infanta de Portugal, filha de D. Manuel I, o Venturoso (em cujo reinado Cabral tomou posse das terras de Santa Cruz, depois Brasil).
Carlos V e Isabel, os pais de Felipe o educaram como Príncipe católico, pleno da concepção de que seu poder provinha de Deus e o modo de dar contas a Deus de seus direitos, consistia em amar e dedicar-se inteiramente à Igreja e a seu povo.“Pola ley e pola Grey”, como se dizia na época: “pela Lei de Deus e pelo povo de Deus”. O Rei, desde seu tempo de Príncipe herdeiro, era quase adorado pelo povo espanhol e por todos seus súditos católicos das outras regiões e continentes (só não era apreciado, por razões óbvias, pelos súditos protestantes, das terras de Flandres). Casou-se quatro vezes. O primeiro casamento, com sua prima Maria de Portugal, que lhe deu um herdeiro, D. Carlos, que ele muito amou, mas, que morreu cedo. Seu segundo casamento, foi inteiramente político, pois sua esposa Maria I Tudor, da Inglaterra, pretendia, com o marido, restabelecer o catolicismo na Inglaterra, que desde o pai dela Henrique VIII, estava dividida entre católicos e protestantes, com a criação da Igreja Anglicana, pelo Rei seu pai. Mas Maria I Tudor, também morreu cedo, de um tumor cancerígeno, deixando-o viúvo pela segunda vez, e perdida a Inglaterra para o protestantismo. Organizou a “Invencível Armada” para reconquistar a Grande Albion, mas, os caminhos da Providência são diferentes dos nossos, e a Armada fez-se em pedaços pela fúria dos mares no Golfo de Biscaia. A Inglaterra ficou com sua cunhada Elizabeth I, filha bastarda de Henrique VIII com Ana Bolena, que concretizou um protestantismo, à moda inglesa, em seu reinado. Para evitar guerras com a França, Felipe II casou-se, uma terceira vez, com Isabel de Valois (filha de Henrique II de França e de Catarina de Medicis). A rainha morreu sem lhe dar um herdeiro homem, e hei-lo viúvo pela terceira vez. Casou-se ainda uma quarta vez com Ana Maria de Áustria (uma Habsburgo, como ele), e essa então deu-lhe o esperado herdeiro, que o sucederia no trono espanhol como Felipe III.É interessante observar que foi Felipe II que usurpou o trono de Portugal, em 1580. Uma usurpação um tanto “sui generis”. Seu primo o Rei D. Sebastião de Portugal, morrera ou desaparecera na Batalha de Alcacer-Kebir, contra os mouros, no norte da África. D. Sebastião era solteiro, não tinha filhos, nem irmãos, nem sobrinhos, nem primos de primeiro grau. Sua morte ou desaparecimento, deu-se em 1578, e, não havendo herdeiro direto, quem assumiu a coroa, pela Sagrada Linha de Sucessão Dinástica, foi um irmão de seu avô D. João III (das Capitanias Hereditárias), seu tio-avô, o Cardeal-Rei D. Henrique II, que só viveu dois anos, falecendo em 1580, ano trágico na História de Portugal. Com a morte do Cardeal-Rei, naturalmente sem herdeiros diretos, a Coroa portuguesa caberia a uma sobrinha-neta de D. Henrique II e de D. João III, D. Catarina, casada com um Príncipe português, de uma ramo mais colateral, o Duque de Bragança. (Origens da Dinastia de Bragança). Mas, D. Catarina era mulher e seu marido não tinha poder militar. Outro primo dela também sobrinho-neto dos Reis citados e portanto, como ela, primos em 2º grau de D. Sebastião (o desejado), D. Antônio, Prior do Crato, tentou uma resistência militar contra Felipe II (que também era primo deles, uma vez que, sua mãe, a Imperatriz D. Isabel, era irmã de D. João III e do Cardeal-Rei D. Henrique II). Felipe II era, entretanto, o mais poderoso Rei da Europa. O Prior do Crato tentou resistir, mas além de sua fraqueza militar, havia outro percalço contra ele: ele era bastardo do sobrinho dos citados Reis. A verdadeira detentora dos direitos ao trono era mesmo D. Catarina de Bragança. Apresentamos como um empecilho de fazer valer seus direitos, o fato de ser mulher. Mas, nessa mesma época, Elizabeth I não mandava e desmandava na Inglaterra? E Catarina de Medicis (princesa florentina), viúva de Henrique II de França, não fora Regente, com autoridade absoluta, nas minoridades de seus filhos, Francisco II, Carlos IX e Henrique III? Não fora ela que determinara o assassinato de todos os protestantes de Paris na célebre noite de S. Bartolomeu? Não eram elas também mulheres? Sim! Mas não eram ibéricas! A Península Ibérica, onde situam-se Portugal e Espanha, passara por sete séculos de domínio islâmico e guerras contra os mouros. Em sete séculos de lutas, cada lado pode conservar sua Fé, mas as culturas, mesclam-se. Houve até casamentos entre Príncipes cristãos e princesas muçulmanas e vice-versa! A cultura mourisca-islâmica influenciou muito a vida de espanhóis e portugueses. A mulher espanhola ou portuguesa, sofrera uma solução de inferioridade, como a mulher islâmica, por força do Corão. (O Corão ou Al Corão ensina que Alá criou primeiro o homem, depois o cavalo e só depois a mulher).
Com um resquício dessa cultura, mesmo sendo católica, como D. Catarina poderia opor-se ao poderoso primo, Felipe II de Espanha? Felipe II, embora neto de D. Manuel I, e sobrinho de D. João III e de D. Henrique II, não poderia nunca pretender à coroa portuguesa, pois, nas Cortes de Leiria, originárias do século XIV, ficava determinado, com força de lei, que jamais um soberano estrangeiro poderia cingir a coroa portuguesa. E Felipe II, como Rei de Espanha, era soberano estrangeiro.
Apesar disso, ele, vitorioso, desembarcou em Lisboa, como Rei de Portugal, (Felipe II em Madri; Felipe I em Lisboa) e quando os fidalgos portugueses, bajuladores, prostraram-se a seus pés, o saudando em espanhol, o Rei lhes reprovou asperamente, mas, em um português perfeito: “Como ousais dirigir-vos ao Rei de Portugal, em língua estrangeira?” O resultado dessa usurpação, de 60 anos, (1580-1640) com Felipe II (Felipe I em Portugal), Felipe III (Felipe II em Portugal) e Felipe IV (Felipe III em Portugal), foi o início das decadências espanhola e portuguesa, como potências de primeira categoria, para potências inferiores. Portugal foi humilhado pelo domínio dos Felipes, tanto que, quando da Restauração (com D. João IV de Bragança, neto de D. Catarina), usa-se, em terras lusitanas, chamar-se a Restauração de “Independência de Portugal”. Espanha inimiga e rival tradicional dos Estados dos Países Baixos, tanto do ponto de vista religioso (os holandeses eram protestantes), como dos pontos de vista político e econômico-comercial (os batavos possuíam uma excelente frota comercial). A antiga aliança entre Portugal e Holanda, no comércio triangular do açúcar, desfez-se, por ordem de Felipe II. Ele não podia permitir que seus arquiinimigos, os holandeses, se beneficiassem desse comércio, que era de grande valia. De fato, ele consistia no seguinte: navios comerciais, portugueses e holandeses (com a autorização do Rei de Portugal, naturalmente, anteriores aos Felipes), partiam de seus portos de origem, na Holanda e em Portugal, carregados de bugigangas baratíssimas, compradas nos camelôs de Amsterdã e de Lisboa; sem valor para os europeus, mas que enchiam a vista dos Reis africanos, que ainda se encontravam na Idade da Pedra. Essas embarcações dirigiam-se para a África Ocidental, onde trocavam (escambo) as bugigangas por centenas ou milhares de escravos. Os Reis africanos possuíam milhares de escravos de tribos vencidas em guerras. O Rei católico Felipe II permitia esse barbarismo, não por considerar que os negros não tivessem alma (séculos antes a Santa Sé Apostólica já ensinara que todos os homens, brancos, negros ou amarelos, descendiam de Adão e Eva, e que portanto possuíam alma) mas sim, movido pela ganância dos interesses econômicos. Muito antes de seu reinado, nos séculos XI, XII e XIII, as Cruzadas, como já vimos, não tinham sido movidas por interesses políticos, econômicos e sociais além do religioso? E isso na Idade Média, “L’âge de la Foi”, a “Doce primavera da Fé”, como a qualificou Leão XIII, no século XIX? Isso portanto nos mostra que, mesmo nos períodos mais místicos da História da Humanidade, o homem sempre foi o homem, pleno de defeitos e qualidades, na medida em que desequilibrava ou conseguia equilibrar as potências de seu espírito, a racionalidade (ou inteligência), a sensibilidade e a vontade, à Luz da Fé, praticando vícios ou virtudes. Na Idade Média predominaram as virtudes, no meio de muitos vícios, já no Renascimento, predominaram os vícios, no centro de muitas virtudes. Felipe II foi um Rei renascentista, mas com espírito ainda medieval. Em seu espírito predominavam as virtudes, mas havia vícios (por isso, nunca pensou-se em canonizá-lo).Continuando o comércio triangular do açúcar, os navios comerciais partiam da África carregados de escravos negros, e seguiam para o Brasil. Aqui, esses escravos, depois de devidamente engordados (nos navios negreiros, os que não morriam e eram jogados ao mar, emagreciam enormemente, ou por doenças ou alimentação deficiente; por isso, a necessidade de engorda), eram vendidos a preço de ouro, homens, mulheres e crianças. Só aí, esses comerciantes já obtinham enorme lucro. Com parte desse lucro, compravam açúcar (artigo cobiçadíssimo na Europa).Vendiam o açúcar na Europa, e então estava terminado o triângulo: Europa, África, Brasil e novamente Europa. Com a milionésima partes desse lucro, compravam as bugigangas e davam início a outro triângulo comercial. O que se passava na Europa, nessa época, é o que os historiadores, costumam chamar de “Revolução Comercial”, “Grandes Navegações”, “Descobrimentos Marítimos”, “Proto-Capitalismo”. E no meio dessas mudanças brutais, da Idade Média Feudal, para a Idade Moderna, Proto ou Pré Capitalista, situa-se Felipe II, um Rei de espírito medieval e de hábitos renascentistas. Houve um escritor que comparou o espírito de dois grandes padres, contemporâneos a Felipe, e que compartilham, os dois juntos a alma do Rei espanhol. Dizia o escritor: “Padre Manuel Bernardes, mesmo falando dos homens tem os olhos em Deus, e Padre Antônio Vieira, mesmo falando de Deus tem os olhos nos homens”. Felipe II tinha sempre os olhos em Deus, mas lidava com os homens, entretanto, às vezes queria que os homens, seus súditos, fossem perfeitos, como Deus é perfeito. Na realidade repetia as palavras de Jesus: “Sede perfeito como Vosso Pai Celestial é perfeito”. Aí está a contradição: um Rei catolicíssimo vivendo no século XVI, início do Renascimento, tendo de lidar com Reis franceses libertinos como Henrique II, como Carlos IX e Henrique III. Tendo que se indispor constantemente com Elizabeth I da Inglaterra e às vezes até com alguns Papas de espírito renascentista, como por exemplo, os Papas políticos e guerreiros Júlio II, Leão X e seus imediatos sucessores que vestiam armadura e iam combater em campo de batalha. Como Felipe II tinha possessões na Itália, não raras vezes, seus exércitos se chocavam com os exércitos pontifícios. Em uma das vitórias espanholas, o Papa mandou perguntar ao Rei, qual seria o seu “butin”. O Rei deu uma resposta que consiste numa mescla de Rei Católico com “O Quixote Renascentista”: Que Vossa Santidade me considere o mais católico de todos os Reis da Cristandade!”“.
Tinha que lidar com os Protestantes, que não existiam na Espanha, nem na Itália, nem na Áustria de seus primos Habsburgo, mas que proliferavam na França (os huguenotes), sua vizinha fronteiriça, e em suas terras de Flandres, pegadas aos superprotestantes Estados Holandeses e da Alemanha do Norte. Apesar de todos os seus problemas políticos, religiosos, militares e de seus casamentos sucessivos e nada felizes, apesar de seu desgosto com a morte do filho D. Carlos, apesar de tudo isso, o reinado de Felipe II era apreciadíssimo por seus súditos e é, até hoje, reconhecido como um dos grandes reinados da História, por historiadores coerentes. Rei da Espanha e de Portugal, Rei de Nápoles e da Sicília, Duque de Milão, Senhor de Flandres, Soberano das colônias Americanas do Norte do Centro e do Sul, de possessões africanas, asiáticas e da Oceania (as Filipinas), espalhou a cultura, a língua, os costumes espanhóis, por toda a parte, e a Religião Católica tornaram-se professadas em todos os continentes do mundo, pois ele incentivava e financiava as ordens religiosas (principalmente jesuítas e franciscanos) e a formação de Dioceses Católicas em todos os rincões do mundo. No Brasil, devido ao seu decreto de suspensão do comércio triangular do açúcar praticado pelos holandeses, foi o causador das invasões holandesas (da Companhia das Índias Ocidentais) que queriam recuperar seus portos, do comércio triangular do açúcar, aqui e na África A Bahia e depois Pernambuco quase todo nordeste brasileiro foram os alvos dos holandeses, que, sem dúvida foi uma derrota espanhola, apesar da final expulsão dos holandeses em 1650 (já no reinado de seu neto Felipe IV). Seu reinado de vitórias e derrotas teve um aspecto positivo (segundo o ponto de vista espiritual) e negativo (segundo o ponto de vista materialista-capitalista). Esse duplo aspecto pode ser assim apresentado: para espalhar a Fé Católica por todo o Orbe, ele arruinou a “Espanha”. Seu espírito é visto, até hoje, concretizado em uma das maiores obras arquitetônicas, já construídas: O Palácio-Convento-Fortaleza do “Escurial”. Quem o observar de fora e mesmo de dentro, se deparará com uma beleza austera de rara felicidade. Sóbrio, forte, magnífico, dominador! Entretanto a igreja do Escurial embora séria, é leve, quase barroca de grandeza e beleza verdadeiramente celestiais! Nele vemos a alma de Felipe II, do Rei Católico, que agora, certamente já está contemplando a Sagrada Face de Deus, em companhia da Santíssima Virgem, dos Anjos e Santos e, com toda a certeza do mártir Padre Andréa Santoro, Pároco de Trebizonda.

FIM