sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

PADRE AGUIAR

Otto de Alencar Sá Pereira



Estávamos nós em intervalo de aulas, no edifício da Barão do Amazonas, um dos dois maiores prédios da nossa Universidade Católica de Petrópolis, onde funcionava e funciona a Faculdade de Engenharia, quando ouvimos uma algazarra, acompanhada de risadas, de gritaria e passos de corrida. Subimos rapidamente a escadaria principal para verificarmos o que se passava. Parecia-nos um furacão humano, uma revolução, um circo, enfim algo de estranho e cômico. O que vimos ao atingirmos o 2º andar? Uma rapaziada correndo e esbanjando-se de rir e apanhando bofetadas e batidas, com a pauta de aula, do Padre Aguiar, que fingindo estar brabo e sério, também ria, quando atingia alguma cabeça, em seu furor cômico. Víamos, ao longe, sua batina preta, esvoaçando, cobrindo seu corpo, ainda moço mas já com algum volume de ventre, corpo esse que se movia rapidamente, distribuindo bofetões e pautadas, a torto e à direito, não em crianças malcriadas, mas em marmanjões de mais de 1.80 ou de 1.90m, atletas de 19 a 24 anos, que fugiam do padre e riam ao mesmo tempo. Mas, todo esse espetáculo cômico, que se repetia constantemente não só na BA, mas também no BC (prédio da Benjamin Constant), não era uma represália do padre-professor contra alunos mal criados. Mas sim, fruto de muito amor e carinho que os alunos nutriam por ele e vice-versa. Daí as brincadeiras diríamos, quase violentas. Por que todo esse amor e todo esse carinho? Nós pessoalmente tínhamos por ele grande respeito e amizade. Não havia entre nós essas intimidades que aconteciam com os alunos, porque, naturalmente nunca fomos seu aluno e sim seu colega de magistério. Ele era bem mais velho, mas seu espírito era jovem, estava sempre rindo e brincando, inclusive na sala dos professores, antes ou nos intervalos de aulas. Não que não fosse sério. Nos lembramos dele não só como Professor de CMR (Ciências Morais e religiosas), temido pelos alunos como mestre rigoroso, e apavorante em épocas de provas, mas também como diretor da Faculdade de Direito. Ai de quem colasse em suas provas. Perdia a prova no ato, com nota zero e ainda sofria sérias represálias orais, quando não era expulso de aula. Chamava o colador de pulha, de ladrão, de safado e outros adjetivos; ficava rubro de raiva, quando presenciava um ato de cola ou mesmo o pronunciamento de ligeiras palavras que poderiam ser interpretadas como preparativo para uma cola. Assim, em suas provas, reinava silêncio sepulcral. Se ele desconfiasse de algum aluno, ou aluna, por causa de um olhar ou gesto suspeito, durante a prova, movia-se do seu lugar para o lado do aluno, com a velocidade de um raio e já armado de alguma régua ou pauta enrolada, para castigar o faltoso, no ato, caso se verificasse o delito. Se não, era capaz até de dar uma gargalhada e dizer: “Assustou-se? Isso é para você ver o que pode acontecer se não agir corretamente”. Aquele aluno ou aluna que, de fato fosse apanhado colando, ficava na berlinda; não merecia mais suas brincadeiras e bofetadas amorosas. Mas, por pouco tempo. Não guardava rancor, logo, seu enorme coração perdoava o faltoso e como sinal do perdão, levava um cascudo, acompanhado de xingamentos humorísticos e risadas. As moças, entretanto, eram respeitadas. Brincava com elas também, ou brigava em caso de cola, mas não as tocava. Sempre dizia: “as moças só podem ser tocadas com flores”. O amor originava-se, dele incarnar o verdadeiro Pai.
Nos lembramos principalmente dele como sacerdote. Quantas vezes recebemos a Sagrada Comunhão de suas mãos consagradas! Quantas vezes conversamos com ele sobre assuntos de Doutrina Católica. Quantas vezes ele nos indagava sobre assuntos históricos e monárquicos, durante longas horas!
Nós o respeitávamos como verdadeiro Padre. Nunca o vimos sem batina. – “Como posso ser conhecido como Padre, se andar sem batina?” – “Certa vez, na rodoviária, um rapaz desesperado pediu-me que o ouvisse em confissão. Sentei-me num banco, ele ajoelhou-se no chão, e confessou-se. O assunto era sério, mas ele saiu calmo, depois da confissão. Se eu estivesse sem batina, quem sabe, alguém viesse a perder a vida, ou ele mesmo!?
Suas palavras, quando não estava brincando eram sempre apostólicas. Em qualquer tempo ou lugar ele pregava a Palavra de Deus. Devotíssimo de Nossa Senhora, isto era também fator de nossa união. Nós também brincávamos eventualmente com ele. Um grande professor de Direito, que infelizmente a Universidade dispensou, também gostava de conversar com Padre Aguiar, e dava-lhe carona para o Seminário quase toda noite, mas se declarava ateu.
E nós, brincando com o velho sacerdote, costumávamos dizer-lhe: “Com este, o senhor perdeu!” Mas acreditamos que, agora, no Céu, ele consiga mais facilmente a conversão deste aludido professor, que foi muito seu amigo e que também prezamos bastante, e que foi grande perda para a UCP, sua saída. Tínhamos um outro grande professor, que era judeu, Certa vez, ao entrarmos no atendimento de professores o encontramos conversando com o Pe. Aguiar. Brincando, abraçamos aos dois e dissemos: “Que interessante! O Velho Testamento confabulando com o Novo Testamento!
O professor judeu, pareceu-nos não ter gostado muito da brincadeira, mas Pe. Aguiar deu risada.
Todos seus antigos alunos e colegas de magistério ainda hoje, lamentam seu falecimento, e principalmente a terrível agressão física que trouxe o início de seu fim.
Entrentanto o que mais nos chocou, mais ainda do que a agressão física que sofreu, foi uma fotografia que nos mostraram, certa vez, no atendimento aos professores. Quando ele foi agredido esteve internado na casa da Providência aqui mesmo em Petrópolis. Fomos visitá-lo e dissemos que queríamos vê-lo de volta, restabelecido, dando suas aulas e celebrando suas Santas Missas na UCP. Acreditamos que não nos reconheceu, pois com um olhar vidrado só nos disse, repetidamente “UCP, UCP, UCP”. Quando melhorou do choque físico, foi levado para o Colégio dos Vicentinos (ele era vicentino), no Cosme Velho, no Rio de Janeiro. Foi de lá que enviaram esta fotografia. Vimos então que além do choque físico, ele sofrera um muito pior: mental, psíquico, não sabemos. Na foto, o Pe. Aguiar que conhecíamos, não era mais ele, pois, com um sorriso meio estranho e cercado de outros vicentinos vestia calça “blue jeans” e camiseta. Mais tarde veio a falecer, mas, para nós, sua morte acontecera antes, por ocasião das circunstâncias que ocasionaram esta fotografia.

PROFESSOR LIPPMANN



Otto de Alencar de Sá-Pereira

Não estou capacitado a escrever sobre a magnífica obra de psicólogo, de filósofo, de professor, etc, que representou a vida de Hanns Ludwig Lippmann. Trabalho já foi feito, por quem de direito, o também notável Professor Helmuth Kruger.
Entretanto, do ponto de vista humano, sempre ambicionei narrar alguns fatos pitorescos da vida desse grande homem grande (era bem alto), que ficarão no desconhecido, se alguém não se propuser a contar. Porque vale a pena!
Conheci o Professor Lippmann graças às nossas semelhantes convicções monárquicas. Sempre fui monarquista e ele também. Nos encontrávamos em acontecimentos da monarquia e da Família Imperial, desde os anos 60, quando ele tinha trinta e poucos anos e eu vinte e tantos. Se não estou enganado, fui apresentado ao grande Lippmann, por D. Pedro Henrique de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil (de 1921 a 1981). Quando Lippman casou-se, na década de 60, não pude comparecer, já não me lembro o porquê, mas a Família Imperial esteve presente e também o então Chefe da Casa Real da Baviera, o Duque Albrecht von Wittelsbach, que era seu íntimo, embora Lippman fosse prussiano, pois nascido em Berlim, em 1921. (Sabemos da velha rivalidade que sempre existiu entre a Prússia e a Baviera). Ele nascera judeu alemão, mas converteu-se ao catolicismo e quando veio para o Brasil, naturalizou-se brasileiro. A sua conversão ao catolicismo não se tratou de uma conversão de conveniência, mas sim uma atitude de espírito, que o fez um católico praticante e professor da filosofia e psicologia católicas: Foi atitude individual, em sua família, pois seus pais continuaram a freqüentar a sinagoga.
Voltando a seu casamento, como já disse, não pude comparecer, mas minha tia, irmã de meu pai, Solange Neiva de Sá Pereira, esteve presente, e como madrinha, por razões bem pitorescas. A noiva do Lippmann, moça do Ceará, era funcionária da Fundação da Casa Popular, onde tia Solange exercia uma das Diretorias. Como a futura Sra. Lippmann não tivesse parentes no Rio, Lippmann achou, como bom alemão, que deveria pedir a mão de sua futura esposa, à minha tia, chefe direta dela. E convidou-a também para ser sua madrinha. Tia Solange lembrava-se de que, no cortejo de carros, até à igreja, ela foi acompanhada do padrinho do Lippmann, que era nada mais, nada menos, que o Professor Plínio Corrêa de Oliveira, grande líder católico ultramontano. Esse fato nos diz bastante da orientação católico monárquica de Hanns Ludwig Lippmann. Quando ele apresentou-se no gabinete de tia Solange, afim de fazer o pedido formal de casamento, bateu os calcanhares, bem à moda prussiana, apresentou-se, como faria um oficial militar diante de uma autoridade, e só então fez o pedido. Tia Solange precisou de muito auto-controle para não rir. Durante anos ela contava esse episódio, às amigas e parentes, com muito humor (refiro-me à minha tia, em tempo passado, porque, embora ela ainda esteja viva, encontra-se com 97 anos e sofre do mal de Alzheimer, infelizmente).
Mas, foi graças ao Professor Lippmannn (e também a Dr. Décio Werneck), que fui convidado a vir lecionar na Universidade Católica de Petrópolis. Em seu convite, ele disse-me o seguinte: “Otto, você vai gostar de lá, o ambiente é bem católico e monárquico”. Como já antes mencionei, não tenho a intenção, nessas linhas, de avaliar o aspecto profissional e de verdadeiro sábio que Lippmann encarnava. Não sou filósofo nem psicólogo. Contudo tive a honra de gozar de sua amizade e intimidade. Lippmann, com todo o aspecto sério, raramente sorria, era entretanto possuidor de um humor extraordinário, mas, à moda dele. Às vezes contava-se algum fato engraçado, em sua presença, ele permanecia sério e em silêncio. Outras vezes, falava-se de assuntos sérios e ele, repentinamente, emitia uma fantástica gargalhada, lembrando-se de algo que ouvira na véspera. Sua gargalhada era “sui generis” pois era acompanhada de movimentos do corpo todo, principalmente do ventre, que era volumoso, e do nariz bem judaico, que ascendia e descendia acompanhando o pescoço. Professor Lippmann era uma figura! Como diriam nossos alunos! Sem deixar sua genialidade de lado, era uma grande figura! Ele usava seus alunos como cobaias de experiências psicológicas. Certa vez, dando sua aula em algum curso, no edifício da Barão do Amazonas, fez seus alunos adormecerem (esse era seu único defeito didático: sua voz tinha sotaque alemão e era monótona. Era preciso um grande esforço para se acompanhar seu discurso). Quando ele constatou que a maioria dormia, repentinamente, deu um murro forte na mesa, acordando a todos. E, como se nada tivesse acontecido, continuou sua aula, no mesmo tom monocórdio. Em outra ocasião, também na BA, aconteceu o mesmo: os alunos dormiam a sono solto. Ele deu o murro despertador, e disse: !nessa sala, na qual estou fazendo vocês dormirem, eu também já dormi muito, pois, no tempo em que esse prédio era hotel, esse era meu quarto favorito”. Era uma figura! Mas, os fatos mais cômicos, que eu saiba, ocorreram no prédio do Sion, no nosso BC da rua Benjamin Constant. No início de um período letivo, ele foi dar a primeira aula, em uma turma numerosa. Sentou-se à mesa, e sem conversa, iniciou a chamada. No meio da chamada, uma doce vozinha feminina a interrompe, com a pergunta inoportuna: “Professor...como é o nome do senhor?” A chamada interrompida, ele levanta-se, põe-se à frente dos alunos, em posição de sentido, e em altos brados, pronuncia, com o terrível sotaque alemão: “Hanns Ludwig Lippmannn, brasileiro, católico, professor de Psicologia, casado, carteira de identidade nº tal, CPF......etc... O que fez a turma estremecer de humor apavorante. Quando acabou, permaneceu em silêncio alguns minutos e depois explodiu com a formidável gargalhada, a qual rapidamente transformava-se na mais séria das fisionomias. Era uma figura!
Um dia, notei, que em sua mão esquerda ele portava um enorme anelão de ouro com um rubi encimando-o. Perguntei o porquê daquele anel, uma vez, que ele não era advogado. Com a mais séria das fisionomias, respondeu-me que aquele anel pertencera à Lucrécia Bórgia e tinha um depósito para veneno! Tive que permanecer sério, fingindo que acreditava. Provavelmente, quando afastou-se de mim, deve ter emitido uma de suas gargalhadas sardônicas. Era uma figura!
Novo episódio com calouros: entra na sala de aula, faz a chamada e vai para o quadro negro. Enche o quadro de incontável número de livros, com seus autores, e editoras. Quando acaba de escrever, comanda: “Copiem”! Em seguida, apaga o quadro e novamente número incontável de livros, autores, editoras. – “Copiem”!!! A turma apavorada, copiava nervosamente. Quando terminaram de copiar o segundo quadro, ele com a fisionomia mais séria do mundo, declarou: “Esses livros que os senhores acabaram de copiar são os que não devem comprar!!! Era uma grande figura! Apagou o quadro, escreveu os nomes de dois livros, e disse: “Esses são os que os senhores devem comprarr” Nessa mesma turma, dava sua aula, excepcionalmente, em pé, e foi interrompido algumas vezes, por alunos e funcionários que batem na porta para recados bobos. Na quinta vez, ele fingiu-se irritado (nunca se irritava) e gritou: “Bata com a cabeça”!!! A porta abriu-se, e era o Reitor da Universidade, D. José Fernandes Veloso, Bispo Auxiliar de Petrópolis, (Recem falecido), que queria dizer-lhe qualquer coisa. D. Veloso, que o conhecia bem, fingiu não ter ouvido e ele, com toda a afabilidade, beijou o anel episcopal, como se também nada tivesse ocorrido. Era uma figura!
Naquela época, anos 70 e princípios dos 80, havia o mal hábito de alunos e professores fumarem em sala de aula. Lippmann fumava charuto e baforava sobre os alunos para observar suas reações. Ninguém reclamava, naturalmente. Mas, certa vez, uma aluna, muito da capeta, durante a aula do Lippmann, no momento que ele, na sua frente, acendeu o charuto, ela tirou de sua bolsa, o mais ordinário dos charutos do mercado, e como se nada houvesse, acendeu seu charuto e baforou sobre ele. Lippmann, continuou a aula, naquele clima de esgrima de baforadas. Era uma figura!
Entrou em sala, como se estivesse encerando o chão com uma enceradeira elétrica e com a boca fazendo o barulho da enceradeira. – “Não estranhem, isso é um reflexo condicionado, pois passei a manhã toda encerando a casa, a faxineira não compareceu. Era uma figura!
Em uma sala de aula, na primeira carteira sentava-se uma freirinha, muito piedosa e tímida. A mesa do professor, nessa sala, ficava bem afastada da primeira fileira de carteiras. Lippmann, para fazer um teste psicológico de comportamento, de repente, empurrou a mesa, do estrado ao chão, tombando, a um metro da pobrezinha da freira, com grande estrondo. A freira ficou tão nervosa, que colegas a levaram para fora da sala de aula, para tomar um copo d’água com açúcar.
Um dia, o grande mestre entrou em sala de aula visivelmente abatido e pálido. Sentou-se e explicou: “Não sou planta, mas passei a noite toda no vaso”!!! – Engano!!! Era sim uma planta, uma planta preciosa, uma “Edelweiss”, transplantada da Alemanha para o Brasil, e cá dando pés e mais pés de flores que foram seus frutos de uma inteligência prodigiosa e de uma cultura estupenda, mas tudo isso acompanhado da excelsa virtude da humildade e do dom de humor sadio!
Foi uma magnífica e santa figura! Que Deus o tenha na sua Glória!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O pensamento Teológico dos Direitos Fundamentais da Pessoa Humana

Hoje em dia, todas as Instituições Jurídicas e Políticas do Mundo inteiro, salientam sempre os “Direitos Fundamentais da Pessoa Humana”. E os apresentam como fruto das Idéias dos Enciclopedistas, do Iluminismo, da Revolução Francesa, da Revolução Norte-Americana da Independência dos Estados Unidos, que resultaram na Declaração dos Direitos Humanos da República Norte Americana, na Constituição da mesma República, nas Constituições iniciais francesas (a primeira ainda sob a Monarquia de Luís XVI), na Constituição Mexicana, na da República Alemã de Weimar (depois da derrota dos Impérios Centrais, na 1ª Guerra Mundial) e etc... Apresentam, portanto, os Direitos Fundamentais da Pessoa Humana, como coisa nova, inventada pelo espírito liberal do iluminismo e enciclopedismo do século XVIII.
E a Doutrina Judaico-Cristã onde fica, nisso tudo? Que, acentuando os Deveres dos Homem para com Deus, “ipso facto”, defendia os Direitos Humanos, uma vez que, Direitos e Deveres devem ser e são equivalentes.
Só um exemplo. Nos dez Mandamentos da Lei de Deus, dados aos homens, no Sinai, através de Moisés: Quando manda amar a Deus sobre todas as coisas, manda também amar ao próximo como a si mesmo. Se os homens praticarem, de verdade, esse amor ao próximo como a si mesmos, já não estarão praticando os Direitos Fundamentais da Pessoa Humana? Os Direitos Fundamentais nasceram, por necessidade, para enfrentarem a falta destes direitos. O que é a falta deste direitos, se não o desamor? Se todos se amarem como a si próprios, respeitarão os direitos de seu próximo, com lei humana ou sem lei humana. AH! Mas os homens não se amam, como quer o Mandamento de Deus – Se eles não se amam, é a lei humana que vai força-los a se amarem? Claro que não, mas pelo menos vai obriga-los, pela lei e pela força a se respeitarem! – Certo, mas aí então fica a grande questão: Os Estados laicisados, que rejeitaram e rejeitam a Lei de Deus, a Religião e a Igreja, devido à ausência da Força Moral destes Estados, foram forçados a inventar os Direitos Humanos não religiosos, para imporem, pela lei e pela força, o que Jesus Cristo, Sua Igreja e Sua Religião, conseguiam pelo Amor a Deus e ao Próximo. – Mas as sociedades religiosas se tornaram Estados Absolutistas e espezinharam os Direitos Humanos, que tiveram que ser ressuscitados pelos Iluministas, pela Revolução independentista Norte Americana, pela Revolução Francesa, etc...
- Ah! Mas então, antes da Revolução Francesa, esses Direitos existiam, não é verdade? Pois precisaram ser ressuscitados!? Se existiam e estavam enfraquecidos pelos Estados Absolutistas, a solução óbvia era fortalecê-los, dentro dos próprios Estados Religiosos, e não derrubar completamente as antigas estruturas, e inventar novas, sem bases, porque sem religião; que resultaram no morticínio da Revolução Francesa, de Napoleão, em Duas Guerras Mundiais etc. Nos campos de concentração Nazistas e Comunistas, na Bomba Atômica, na decadência moral contemporânea, etc, etc, etc... tudo isto, acompanhando as Leis Fundamentais dos Direitos Humanos. Onde e quando estes Direitos são respeitados? Sem os Deveres Religiosos e a volta a Deus e à Sua Igreja!? Nunca. Teremos mais guerras, guerras da Coréia e do Vietnã, guerras do Irã, do Afeganistão e do Iraque, nos Países Árabes e em Israel. Guerras e mais guerras, morticínios e morticínios. Coletivos e particulares como a pedofilia, com homicídio: o aborto, a eutanásia, e outros horrores da Sociedade Contemporânea que se proclama defensora dos Direitos Fundamentais da Pessoa Humana! Todas estas lindas Declarações e Constituições dos Direitos Fundamentais da Pessoa Humana, sem Deus e Sua Igreja se constituem em “Letra Morta”!!!

Nação e Estado

Sempre se diz que o Estado é a Nação politicamente organizada. E é verdadeiro o conceito. Entretanto, nem sempre se explica o que vem a ser Nação, e o que vem a ser Estado. Então vejamos: Para, de início, compreender-se o significado de Nação, para depois falar-se do Estado, precisa-se enunciar a diferença entre Povo e Massa, como explicitou o Santo Padre Pio XII, em um de seus documentos. O que é Povo? E o que é Massa? Porque a Nação constitue-se de Povo (um de seus elementos, sendo os outros, o Território e as Instituições) e não de Massa. Por que esta pergunta? O que é Povo e o que é Massa? A Nação não se constitue de Massa, simplesmente porque a Massa, na realidade, não existe. Fala-se muito de Massa, geralmente quando se trata de Estados Totalitários; mas como aborda-se uma coisa que não existe? Ela existe como um sintoma anormal de um Povo mal guiado e mal orientado. A doença é a Massa. O Povo é a saúde. Mas a doença existe. Não, a doença não existe; o que existe é a falta de saúde. Assim como o mal não existe; o que existe é a ausência do Bem. Mas o mal é o demônio, e o demônio existe. Sim, mas antes de ser demônio, ele era um Anjo de Luz, daí Lucifer. O anjo de Luz é o que, de fato existiu, pela vontade de Deus. O demônio é a negação do anjo, é a negação do Bem, é contra vontade de Deus, é o produto do orgulho.
Assim, a Massa, é a contra vontade do Povo. Explica-se a Massa como o conjunto de indivíduos, enquanto o Povo é o conjunto de pessoas.
Mas então, existe diferença entre Pessoa e Indivíduo? Sim, existe. Não, no linguajar corriqueiro, mas, no estudo sociológico e filosófico, a diferença existe. Como é esta diferença? Como ponto inicial, podemos afirmar: A Pessoa existe. O Indivíduo não existe. Mas, se não existe, para que falar-se dele? Porque, mal orientados, muitos julgam que o indivíduo existe e que a Massa existe. Então como se entende o conceito de “indivíduo”? O ser humano composto só de características endógenas (hereditárias, dele mesmo, e de dons congênitos), seria o indivíduo. Ora, só por esta definição, já se observa o absurdo. O ser humano, assim constituído, parece produzido em proveta! Sim, porque, onde estão as influências externas, exógenas do meio ambiente físico e social? Onde se encontram? Pode existir ser humano, sem estas referidas influências? Já por aí, vemos que o indivíduo é uma ficção. Seria como um “robot” sem vontade própria, manipulado por qualquer poder. A Massa é isso: conjunto de indivíduos despersonalizados, conduzidos pelo ditador que ordena: “Todos para a direita!!!” E todos vão para a direita. Ou então: “Todos para a esquerda!!! E todas vão para a esquerda. Ou ainda: “Todos guilhotinando os Reis, os Príncipes, os Clérigos e os Nobres”! E todos partem gritando e cantando: “ça ira” ça ira ça ira! Lês aristocrates, à la lanterne on les pendra!! Pode ser traduzido assim: “Avante” avante! Avante! Os aristocratas, nos postes nós vamos enforca-los!
Ou então ainda, em outra perspectiva: “Em fila! Todos para o banho, sem roupas onde serão desinfectados? (E o banheiro era a câmara de gás mortífero dos nazistas). Ou então, como no Comunismo: “A Religião é o ópio do povo. Matemos o Czar e sua família, os nobres e todos os religiosos!”.
O povo russo, se não estivesse massificado, nunca teria feito o que fez em 1917. O Czar era chamado de Babusca (Paisinho) a Czarina de Mamusca (mãesinha) !!! O povo russo tinha se tornado em massa devido à pregação bolchevique e comunista.
Como o alemão do Nazismo, permitindo que a GESTAPO, a SS e outros monstros, matassem os judeus, matassem os negros, os católicos, etc. levassem seus jovens filhos, de cabeças feitas, também massificadas, para o “front”! de combate, para uma guerra já perdida, e ainda vociferando: “Heil Hitler!!! Heil Hitler!!!
A massificação traz a necessidade de um homem todo poderoso: ditadores, como foram Robespierre, na Revolução Francesa. Hitler, no Nazismo, Lenine e Stalin, no comunismo, foram necessários para apertarem os botões de funcionamento das máquinas humanas, ou massas. Só por causa destes acontecimentos patológicos, da História Moderna e Contemporânea, do Homem é que se estuda esta ficção chamada “indivíduo”. Ou então para ser usado como um pejorativo da pessoa humana. – “Aquele ali é um indivíduo; não é uma Pessoa”. “Fulano não passa de um pobre indivíduo, mas já Beltrano, não, este é uma Pessoa! Um verdadeiro Ser Humano!
Visto isto, vamos repetir: “Indivíduo é Massa. Pessoa é Povo”.
O Ser Humano verdadeiro, feito à Imagem e Semelhança de Deus, é pessoa e assim forma o Povo.
O que é ser Pessoa? Além da denominação de “Ser, feito à Imagem e Semelhança de Deus”, definição teológica, que por isso só, já coloca o homem lá nos píncaros da criação, além disso, o homem – Pessoa, diz-se daquele que, além das qualidades endógenas (do indivíduo), próprias dele mesmo, hereditárias e de dons gratuitos, possua também as exógenas (segundo os sociólogos, as verdadeiras e únicas influências – exagero naturalmente). De fato as qualidades exógenas, embora não sejam as únicas, são, de fato, as mais importantes. O homem vive em contacto com outros homens, que exercem uma influencia inegável em seu comportamento e formação. Vivem também em um meio físico, que também é importantíssimo, na sua constituição. Vejamos só um exemplo, no campo das artes. Na Música – um Beethoven. Não era de família de músicos, portanto hereditariamente nada herdara de qualidades musicais. Recebera sim, um “Dom Divino da Música”. Esse “dom” é, de fato, endógeno. Mas suponhamos que ele, em lugar de ter nascido em Bonn, na Alemanha, e educado em Viena, a capital da Música, portanto na Europa, no século XIX, tivesse nascido na Nigéria, ou no Congo, portanto na África, negra, no mesmo século XIX. O dom Divino ele possuiria igualmente. Mas o que comporia com esse “dom”, naquela África daquele tempo? Sem conhecer o cravo, o violino, o violoncelo, a flauta, a trompa, a teoria musical, a harmonia, a composição, etc. Sem ouvir música erudita ao seu redor, sem orquestras sinfônicas, sem teatros, ou mesmo serões musicais domésticos, etc. etc...etc.., o que o pobre Beethoven africano, apesar do “Dom”, poderia compor? Se não batuques e outras percurssões em tambores de coro de animais? O que o pobre poderia compor, apesar do “Dom” endógeno? Sem os componentes exógenos (cravo, trompa, flauta, composição, etc) nada mesmo. Este exemplo, penso, ser suficiente para se verificar que Beethoven era “Pessoa” e não um simples “indivíduo”.
Então, já tendo visto o que é, ou, o que não é, indivíduo e massa, passaremos ao estudo da Pessoa, para chegarmos ao Povo, um dos “Elementos Básicos da Nacionalidade”. Como já vimos, a Pessoa é o Ser Humano verdadeiro. Formado de características endógenas e exógenas. Já tendo abordado as endógenas, quando tratava-se do indivíduo, vejamos agora as exógenas. Como a palavra já diz, as características exógenas, são aquelas que vêm de fora para dentro. Portanto as originárias do meio ambiente físico ou social. Vejamos as do meio ambiente físico: O paulista e o carioca. A geografia urbana de São Paulo exerce, sobre seus habitantes, uma compenetração muito mais séria da vida, do trabalho, do dever. Por que será? Não há florestas, não há praias, não há recreações da Natureza. O homem é impelido a trabalhar. Já o carioca, que more na Barra, por exemplo, e trabalhe no centro urbano do Rio, para ir para seu trabalho, ele passa pelas praias da Barra e de São Conrado. Passa pelas praias de Leblon, de Ipanema, de Copacabana, de Botafogo e do Flamengo, sempre cheias de gente, mesmo nos dias da semana; com que espírito de trabalhador ele chega ao seu escritório? Só pensa em liquidar o mais rapidamente possível, as pendências, para voltar para casa e correr para a praia. Essa é a realidade exógena deste exemplo. Vejamos outro exemplo? Porque certos povos da Europa, nas diversas épocas da História, foram especialmente navegadores, e outros, não? Quais os navegadores? Na História Antiga, os Cretenses, os Fenícios e os Gregos. Por que? Os cretenses, porque Creta é uma ilha. Os fenícios e os gregos, porque seus territórios pequenos e a beira mar, às vezes recortados de enseadas e baías, os impeliam para o mar. Na História Medieval e Moderna, os navegadores foram os portugueses, os espanhóis, os ingleses, os holandeses, e os escandinavos. Por que? Pelas mesmíssimas razões. A Inglaterra é uma ilha. E Portugal, Espanha, Holanda e os Países Escandinavos, ou tem territórios pequenos e recortados de enseadas e baías, ou são situadas em posições geográficas próprias para a conquista dos mares. Como Camões dizia de Portugal: “terra lusitana à beira mar plantada”!
E os exógenos sociais? Como o homem influencia o homem? O pernambucano vem viver no Rio e perde seu sotaque de Pernambuco e adquire o de carioca. Viajando entre Rio e Pernambuco, ele lá é chamado de carioca, aqui ele é conhecido como pernambucano.
Não é mais nem pernambucano, nem carioca, as características exógenas fizeram dele um ser diferente. Tal a força das características exógenas!
Vemos assim que estas características exógenas, produzidas pelos meio-ambiente físico-geográfico, ou humanos, formaram a Pessoa, o Ser Humano.
Como sabemos o Ser Humano é gregário, portanto o conjunto de seres humanos ou pessoas, forma o Povo. Mas, antes de formar o Povo, forma o Grupo social. É o conjunto de Grupos sociais que constroe a Povo e a Nação. Os Grupos Sociais podem ser de diversas categorias, como a família, que é o básico; grupos sociais de cultura, estudo, de trabalho, militares, religiosos, etc.
As mesmas pessoas pertencem, em geral a diversos grupos sociais, ao mesmo tempo.
Mas são os grupos sociais, que formam o Povo e consequentemente, a Nação. Será contudo, que, grupos sociais heterogêneos possam formar um Povo e uma nação? Pensamos que não. Assim, aqui temos que tomar em consideração, os elementos básicos da Nacionalidade. São eles que, aplicados ao Povo, formam a nação. Quais seriam? Resposta: O Homem (que é a Pessoa Humana), a Terra (território) e as Instituições.
Comecemos pelo Homem. O que precisa o Homem, para ser considerado um Homem-Nacional (ou súdito, ou cidadão) Que elementos, este homem, ou mulher, o conjunto destes homens, deveria ter, para ser Homem Nacional?
Os elementos que citaremos agora, não são absolutos, como nada pode ser absoluto em ciências sociais ou políticas. Os mesmos elementos constitutivos do Homem-Nacional podem aparecer, ou não, conforme o povo. Exemplo: Um dos elementos constitutivos é a Raça.; No Brasil não temos uma raça única e sim uma extraordinária miscigenação da raça amarela. (os descendentes dos silvícolas e asiáticos, japoneses); com a raça branca (os originários da Europa); e com a raça negra (originários da África). O outro elemento é a religião.. Há povos de uma só religião(considerado-se naturalmente a grande maioria do povo) como os povos italiano, austríaco, bávaro, húngaro, português, espanhol, etc... onde a religião predominante é a católica, a ponto de ser poder dizer que estes povos são católicos, como aliás também quase todos os povos íbero-americanos. Em outras, como na Alemanha a competição é acirrada entre católicos e protestantes. A mesma coisa acontece na França atual, entre cristãos católicos e ateus.
Ainda outro é a língua. Ninguém pode duvidar de que o Paraguai seja uma Nação. Entretanto lá fala-se duas línguas igualmente fortes: o espanhol e o guarani. Já aqui no nosso Brasil, o português dominou completamente toda a nação. Entre os indígenas, ainda se fala o guarani, o tupi, etc. mas todos falam o português. A língua portuguesa é uma das características típicas do homem brasileiro. Na Europa, em geral não só as Nações, mas as regiões, falam suas línguas nacionais ou seus “patois”, mas aqueles que falam os “patois”, falam também a língua nacional. A Suíça é uma exceção: ela apresenta três línguas nacionais, além dos “patois” dialetos, o francês, o alemão e o italiano. Não há uma lingua suíça, embora haja dezenas de “patois”. Mas o suíço de classe-media para cima, geralmente fala o francês, o alemão e o italiano, alem do seu “patois” regional.
Outros elementos constitutivos do povo ou Nação são os Costumes, hábitos, tradições. As nações distinguem-se também por estes elementos, que alias são muito importantes. Hábitos, Costumes, Tradição, podem haver várias e diferentes em um mesmo Povo, em uma mesma Nação. Mas, circunstancialmente, porque em essência, um povo Nacional, possue hábitos, costumes e tradições, típicas, próprias, daquele Povo e daquela Nação e de nenhuma outra. Podemos citar, como exemplo: “as toradas espanholas”. É uma tradição tipicamente espanhola, e só espanhola. Há toradas no México, ou em outros países ibero-americanos? Pode ser que as haja, mas não são a mesma coisa. O “ballet Russo”? é só russo! Há “ballets” brilhantíssimos em outros países, mas o povo russo nasce bailando, e supera todos os outros. O “Tango Argentino”. “O “Samba brasileiro”, “ o carnaval brasileiro”, a disciplina do militarismo germânico, a postura e o garbo do militar britânico. A Opera Italiana, há óperas até mais belas de que as óperas italianas, mas é inegável que o canto lírico nasceu na Itália, e está no sangue do italiano. O “foot-ball” nasceu na Inglaterra, mas foi superado pelo “futebol,” brasileiro, que fez do Brasil, o pais do Futebol. A Valsa Vienense”, a !Monarquia Britânica?” o “fado português”, a magnificência da arquitetura medieval na França e na Alemanha" O minueto francês. O "jazz" norte americano. Enfim, poderíamos encher páginas e páginas mencionando os hábitos, as tradições e os costumes”. Próprios de cada povo e de cada Nação que os distinguem dos outros.
Assim, o Primeiro Elementos Básico de Nacionalidade que é o Homem, o Ser Humano, só será Nacional, se possuir estas características próprias, de Raça, de Língua de Religião, e de Hábitos, Costumes e Tradições.
O Segundo Elementos Básico da Nacionalidade, é o “Território”, que chamamos de “A terra” ou “País”.
O Território é o espaço geográfico onde vive aquele Povo, aquela determinada Nação. Haverá exceções? De Povos ou Nações, sem territórios? Sim, houve e há. Por exemplo, o Povo de Israel, que durante mais de mil anos ficou sem território e não se desintegrou. Não se desintegrou porque os seus outros elementos básicos eram muito fortes. Outro exemplo é dos “Ciganos”. Eles são uma Nação, um Povo. Mas nunca quiseram ter um território próprio. Vivem e passam pelos territórios dos outros. Mas, são exceções!
Todo o Povo, toda Nação tem que possuir o seu próprio território. Não há necessidade do território ser grande ou pequeno, gigantesco, ou minúsculo. O importante é que exista. Também não há necessidade que seja contínuo ou descontínuo. O Brasil possue um enorme território contínuo. Isto significa que seu território não é dividido por mares ou territórios de outros países (não se mencionando, devido à insignificância do exemplo, a ilha da Trindade e o arquipélago de Fernando de Noronha). Já os EE.UU. possuem um território descontínuo, pois entre eles e o Alasca, por exemplo, encontra-se o Canadá. Nos países do antigo “Sacro-Império-Romano-Alemão, a descontinuidade era o marcante. Por exemplo: um viajante que percorresse, por terra, o Sacro-Império atravessando-o sempre reto de Oeste para Leste, poderia sair do Grão-Ducado de Hesse, entrar no Reino da Baviera, depois passar de novo por Hesse, entrar na Saxônia, passar por um pedaço da Prússia, voltar à Saxônia e acabar o périplo na Bohêmia. De tal maneira era entrecortado o Sacro Império, sem mencionarmos, pequenos Principados – Condaes, minúsculos que o viajante certamente também cortaria. Quanto ao tamanho, também isto não constitue impecilho. Existem territórios gigantescos, como o do Brasil, ou da Rússia, ou EE.UU. ou China. Existem os grandes, como a Índia, a Argentina, o México, a Alemanha, etc... há os médios, que são a maioria dos paises latino-americanos, menos os já mencionados, a França, a Itália, a Grã-Bretanha, etc. Os pequenos como Portugal, Suíça, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Noruega, Uruguai, Paraguai, Cambodja, Tailândia, etc... E existem os pequeníssimos ou mesmo minúsculos, como a Costa Rica, a Nicaragua, Luxemburgo, Andorra, Mônaco, etc... – Entretanto, o território minúsculo de Mônaco, ou a Gigantesca Rússia, são igualmente, o “2º elemento básico da nacionalidade “a terra, ou país, ou território”. Resta a considerar agora, o “3º” elemento básico da nacionalidade”, ou seja, “As Instituições”.
Como explicar, em que se constituem as Instituições? Se não, vejamos: O Povo Nacional, vivendo em determinado território, necessita de ordem, de leis, de organizações que tragam o trabalho, o desenvolvimento, espiritual, intelectual e material, etc...
Os meios usados para isso obtermos é que chamamos de Instituições. Estas podem ser Instituições Sociais, Políticas, Econômicas, Culturais, Pedagógicas, Militares, Religiosas, etc...
Como exemplo, podemos enumerar alguns tipos de Instituições:
1. Sociais: um Instituto filantrópico , desportivo ou recreativo, um Instituto de Previdência, uma Seguradora... etc...
2. Políticos: um Partido Político, um jornal político, a organização político-administrativa do Pais, etc... A própria organização do ESTADO.
3. Econômicas: Um banco, uma Instituição Financeira, uma Revista Econômica, etc...
4. Culturais: Um Museu, uma Orquestra Sinfônica, uma Pinacoteca, uma exposição de Arte, etc...
5. Pedagógicos: um Colégio, um Seminário, uma Universidade, qualquer organização de ensino, etc...
6. Militares: As Forças Armadas, a Polícia Militar, o corpo de Bombeiros, etc...
7. Religiosas: A Santa Igreja Católica Apostólica e Romana, outras religiões, Institutos religiosos, etc...
De todas estas Instituições, a que mais nos interessa, aqui, é a Instituição política.
Como vimos anteriormente, da Pessoa Humana, originou-se o Grupo Social, dos Grupos Sociais surgiu o Grupo social Nacional, com seus Elementos Básicos. Destes elementos Básicos, o mais importante é o Político, porque gerou o Estado.
Consequentemente o Estado resultou da Nação e não o contrário, como pregam as ditaduras de Direita ou de Esquerda. Para elas o homem vive para o Estado, pois só o Estado, todo poderoso, é que sabe tudo, que é capaz de conduzir o povo ao “Bem Comum” (“Bonum Comune” dos romanos) que é a própria finalidade de existir o Estado.
Entretanto, como já tivemos ocasião de estudar, o Estado resulta da Nação, e esta do conjunto harmônico de Grupos sociais, e este da Pessoa Humana. Estas são as proposições:
a) O Estado vem da Nação – certo
b) A Nação vem do estado – errado
A proposição “a” cria os Estados orgânicos e democráticos.
A proposição “b” forma, embora temporariamente e descompassadamente, os estados totalitários, de esquerda ou de direita.
Damos alguns exemplos hodiernos de estados “a” (Orgânicos ou democráticos) e de estados “b” (totalitários), para bom esclarecimento:
1) Estados “a”: EE.UU. Inglaterra, França, Brasil, Espanha, Alemanha, Itália, Jordânia, Marrocos, Dinamarca, Bélgica, Holanda, Suécia, Noruega, Austria, Argentina, Chile, México, etc...
2) Estados “b”: China, Coréia do Norte, Cuba, Vietnam, muitas repúblicas africanas, etc...
Existem muitas outras que não se definem bem, ou no “a” ou no “b”, ou então que pulam do “b” para o “a” e do “a”, para o “b”, conforme os ventos políticos.
Vamos terminar, dando um belíssimo exemplo, de estado tipo “a”, contando uma história ocorrida, no princípio do século XX. O Pais é a Holanda (ou Países Baixos). A Rainha de então era a grande “Guilhermina”. Seu aniversário . O povo holandês saúda a data com feriado, festas, danças, desfiles, bebedeiras, alegria. Até dentro dos parques do Palácio Real o povo comemora. Interiormente a Rainha dá baile para a nobreza holandesa, governo e corpo diplomático. Exteriormente, já sendo noite, temos o povo acendendo fogueiras, cantando, bailando e, de vez em quando, gritando: “Viva a Rainha!!!” Ela aparece nos balcões do Palácio, e quando isto se dá, as saudações aumentam, gritos e palmas! E isto repete-se a noite toda e a madrugada a dentro. La pelas 3 horas da manhã, já tendo terminado a festa de dentro do Palácio, a Rainha aparece mais uma vez nos balcões para pedir ao povo que fosse dormir. Nada adiantou.. Então, ela acordou sua filhinha de 9 anos, a Princesa Herdeira Juliana, para acompanhá-la aos balcões e de camisola de dormir, para o povo finalmente entender que chegara a hora de parar. E foi o que aconteceu. Entretanto a jovem Princesa, admirada com a multidão que as saudava, à Rainha e a ela, timidamente perguntou à Mãe: “Mamãe, toda esta gente nos pertence?
A Rainha aproveitou para ministrar à filha, ou melhor, à Princesa, sua primeira aula de Ciência Política, e assim respondeu: “Não, minha filha, nós é que pertencemos a toda esta gente”
Em outras palavras, o Estado, ali representado pela Rainha e pela Princesa pertence ao povo, à Nação, porque foi por ela Nação, criado.




terça-feira, 19 de agosto de 2008

Alta e Baixa Idade Média, especialmente na França: Merovíngios, Carolíngios e Capetíngios. A Taumaturgia

Otto de Alencar Sá Pereira

A História divide a Idade Média, em dois períodos: a Alta Idade Média, do século V (queda do Império Romano do Ocidente) ao X; e a Baixa do século X ao século XV (queda do Império Romano do Oriente ou Bizantino e início da Idade Moderna, com o Renascimento).
O interessante, é que, na França, a Alta Idade Média corresponde à Dinastia dos Merovíngios. Na transição da Alta para a Baixa, encontramos os Carolíngios. E já na Baixa, temos a 3ª Dinastia dos Reis francos, ou franceses, ou de França, os Capetíngios. O mais interessante, ainda, é que os Carolíngios, descendiam, por lado feminino, dos Merovíngios, e os Capetíngios, também por lado feminino, dos Carolíngios.
O que nos leva a verificar que o mesmo sangue de Reis, reinou na França por 14 séculos, por cerca de 1400 anos. Considerando-se que a França, como Nação e Estado, tem menos de 1600 anos, o sangue dos Reis foi que verdadeiramente edificou a Pátria dos franceses. Como diz Jacques Bainville, na Introdução de sua Histoire de France: Tivemos Reis bons e maus, fortes e fracos, competentes e incompetentes, guerreiros e pacíficos. Sua realização: La France.
A Dinastia mais antiga, a dos Merovíngios, descendente de diversas tribos de reis bárbaros germânicos, estabeleceu-se nas terras da Gália (nome que Roma dava a essa sua província, depois França) com Clovis (século V) Rei dos Francos Sálicos, neto de Meroveu, (daí Merovíngios), que antes reinavam só no nordeste da França, mas, que depois, por seus descendentes, passaram a formar diversos reinos, em território gaulês, como a Austrásia, a Neustria, a Borgonha, a Aquitânia, o Orleans o Paris etc. Esses diversos reinos eram todos da família Merovíngia. Se dividiam, porque não havia ainda a Lei da Sucessão por primogenitura. Logo, quando um Rei morria, todos seus filhos herdavam, portanto o reino era dividido em vários pequenos reinos. Como tinham ainda hábitos bem bárbaros, ocorriam constantemente homicídios entre parentes, fratricídios, parricídios, e os outros muitos assassinatos, entre tios, primos e sobrinhos. Tudo isso para unificar o que estava esfacelado. De fato, entre os séculos V e VIII, a França, ora estava unificada em um só reino, ou dois, ora estava cortada em fatias diversas, em pequenos reinos. Fatos bem típicos da barbárie da alta Idade Média, onde, a cultura romana antiga, fora quase toda esquecida ou destruída (não totalmente, porque os mosteiros e conventos católicos preservaram muita coisa) e a Igreja não tinha ainda conseguido pregar a Palavra de Deus, pelo Evangelho, por toda à parte, e também o surgimento de heresias que dividiam os já cristãos e muitas vezes os Reis, que se combatiam também por motivos religiosos.
Finalmente, no reinado unificado do Merovíngio Childerico III, um seu ministro, aliás, mais do que isso, uma espécie de Primeiro Ministro, cargo de Prefeito de Palácio, Pepin o Breve (porque era baixo) ( em francês Pepin, le Bref) aproveitando uma circunstância política, que lhe era favorável, o Papa estava sendo ameaçado, da invasão de suas propriedades romanas, pelos Lombardos que já se encontravam no norte da Itália, que eram cristãos, porém da heresia ariana, propôs ao Santo Padre Zacharias uma questão: “Quem deve ser o Rei legítimo de França, aquele que simplesmente porta a coroa sobre sua cabeça, ou aquele que verdadeiramente governa?”
O Papa, para defender-se dos Lombardos, só podia contar com dois soberanos: ou o Imperador Bizantino de Constantinopla, ou o Rei dos francos! E isso porque os demais reinos da Europa, ou estavam contaminados da heresia ariana, como os próprios Lombardos ou ainda eram pagãos. O Imperador Bizantino seria o natural defensor da Igreja, mas, na época, a heresia iconoclasta, tinha tomado conta do Império Romano do Oriente. Heresia muito menos grave que a ariana, mas a Igreja a tinha condenado. Logo, esse atrito entre Roma e Constantinopla, impedia que a segunda ajudasse a primeira. Restava ao Papa pedir socorro ao Rei dos francos. Sabedor de que Childerico III não tinha autoridade, e fingindo desconhecer a carta de Pepin, para não ter que pronunciar uma sentença, escreveu, ao próprio Prefeito de Palácio, Pepin le Bref, diretamente, para não perder tempo, pedindo socorro contra a invasão lombarda. Pepin, interpretando esse pedido de socorro, só dirigido a ele e não ao Rei, como uma resposta sub-reptícia do Papa, à sua carta, depôs do trono seu primo Childerico III, colocou-o preso em um Mosteiro, coroou-se Rei dos Francos em Reims e partiu, com seus exércitos, para a Itália. Lá venceu os lombardos, e chegando triunfante a Roma, foi coroado, pela segunda vez, Rei dos Francos, pelo Sumo Pontífice, que já não era o Papa Zacharias, que havia morrido, e sim Estevão III. A esse, em gratidão, Pepin doou muitas terras, antes bizantinas, o Exarcado de Ravena, a Pentápole e outras terras em torno de Roma. Tornou o Papa não só o Soberano Espiritual da Cristandade, mas também soberano temporal de um Reino ao Centro da Itália, que chamou-se Patrimônio de S. Pedro, ou Estados Pontifícios, que duraram dez séculos. Isso tudo ocorreu no século VIII da nossa Era, dando início à Dinastia Carolíngia, pois Pepin era filho de Carlos Martel (Carolus, em latim, daí Carolíngios. Martel era uma espécie de arma em formato de martelo, martelus, em latim, marteau em francês) aquele que na batalha de Poitiers (também como Prefeito de Palácio) estancou, no Ocidente, a invasão islâmica, enquanto no Oriente, o Imperador Bizantino Leão III impedia a Tomada de Constantinopla pelos Islamitas. Estas duas vitórias cristãs, do século VIII, salvaram a Europa de se tornar muçulmana, pois o Império Islâmico, nessa época, atingira toda sua expansão e plenitude, indo do Oceano Índico ao Atlântico. Pepin, o primeiro Rei Carolíngio dos francos, foi o pai de Carlos Magno. Carlos Magno, com suas vitórias na Germânia, na Itália e na Península Ibérica reconstruiu a Idéia de Império, tanto que, chegando a Roma, foi coroado pelo Papa, como Imperador do Ocidente. Esses séculos VIII e IX, séculos dos Carolíngios, representam aquela fase intermediária entre a Alta e a Baixa Idade Média. Nesta fase os Carolíngios reinam na França, na Germânia (Alemanha e outros estados do Leste, hoje eslavos) e no norte da Itália. O século X já pode ser considerado o início da Baixa Idade Média, com o princípio do Feudalismo. Na França, os Carolíngios foram sendo substituídos por seus primos Capetíngios, aos poucos, chegou a haver momentos que o trono era ocupado ao mesmo tempo, por um Rei Carolíngio e outro Capetíngio. Finalmente em 987, Hugo I Capet, reina sozinho na França, mas em uma França já feudal, onde os descendentes dos governadores das províncias nomeados pelos Carolíngios, se tornam vitalícios e hereditários, como Duques, Marqueses, Condes, Barões ou simples Senhores. No tempo dos Carolíngios, os Duques eram Governadores de Grandes Províncias Militares (Duque vem de “Dux”, chefe militar, em latim). Os Condes governavam Províncias Internas, mais próximas da Capital, (pois Conde origina-se de “Comes”, que em latim é um comensal, do Rei). Já os Marqueses governavam as Províncias de fronteiras, de marco, que determina a fronteira (a palavra é de origem alemã, “Mark”, assim na Alemanha os Marqueses são Markgraf (Condes do marco, enquanto os Condes, são os “Landgraf” – Condes da Terra). Finalmente os Barões governam províncias menores , ou sub-províncias (a palavra Barão origina-se em Varão, homem livre “vir”, em latim, homem livre, que não é escravo ou servo; equivale ao “Freiherr”, alemão que significa também Barão ou Homem Livre). Finalmente o simples “Senhor”, ou “Herr”, em alemão: ou “Dominus”, em latim, “Dom”, ou “Lord” em Inglês, ou Señor em espanhol, Senhor em português, que vem também da palavra “Senior” “Latina”, filho mais velho, o contrário do “Junior”.
Consequentemente, estes Senhores, Barões, Condes, Marqueses e Duques, antes nomeados pelo Reis ou Imperadores Carolíngios, agora na Baixa Idade Média pela fraqueza dos primeiros Reis Capetíngios, na França e pela decadência dos últimos Carolíngios da Alemanha, formam as Senhorias, os Baronatos, os Condados, os Marquesados (ou Marcas) e os Ducados, todos vitalícios e hereditários, que possuem trono, armas (brazão), exército, súditos, etc...
Forma-se a pirâmide hierárquica feudal da Baixa Idade Média, onde no ápice está o Papa, logo abaixo dele o Imperador do Ocidente (mais tarde Imperador do Sacro-Império-Romano-Germânico), depois os Reis; abaixo de cada Rei, os seus Duques, Marqueses, Condes, Barões e Senhores, hierarquizados, pela lei da subsidiariedade, não por documento escrito, como se fossem Estatutos ou Constituições, mas sim pela palavra, pela honra, pela “Homage”, cerimônia político religiosa, na qual o Senhor aceitava ou reconhecia ao Súdito, por meio de um galho de árvore, representando sua terra, parte dela, o feudo, e o súdito colocava suas mãos entre as mãos do Senhor, proferindo o ato de fidelidade e recebendo do Senhor “l’acolage”, o beijo, em ambas as faces, como o Pai beija o filho. Entenda-se aqui, que o Senhor e o Súdito, estão presentes em todos os degraus da Pirâmide Feudal. Por exemplo, o Rei é Senhor do Duque e portanto o Duque é súdito (ou melhor dizendo, vassalo) do Rei. O Conde é vassalo ou súdito do Duque e o Duque é Senhor do Conde, e, assim por diante. (Aqui só se citando a Realeza e a Nobreza, pois abaixo delas vinham ainda os Cavaleiros, os Burgueses, os Comuns e os Camponeses. Isso aconteceu, nesses termos, de maneira igual, na França e na Alemanha). Em circunstâncias semelhantes, na Inglaterra e em todos os países do Ocidente europeu. Na França, como já foi dito, os Capetíngios substituíram os Carolíngios, no século X, mas na Alemanha os Carolíngios ainda reinaram por mais um século. Alguns Carolíngios se casaram com as famílias dos Senhores alemães; pois na Alemanha deu-se fenômeno semelhante ao da França, instituindo o Feudalismo Germânico, que chegou a ter mais de trezentos feudos. O Feudalismo Francês foi sendo durante toda a Baixa Idade Média, a pouco e pouco, vencido pela autoridade do Rei, que no princípio, no século X, assemelhava-se a qualquer outro Senhor Feudal. Houve Duques mais poderosos que os Reis. Mas as duas guerras dos cem anos, foram dando ao Rei, mais terras e portanto maior poder.
Isso tudo aconteceu nos reinados dos Capetíngios diretos, depois dos Capetíngios indiretos, chamados de Valois. Quando foi, finalmente, a Inglaterra derrotada, na 2ª guerra dos cem anos, os Reis de França já dominavam todos os Senhores Feudais da França com certa facilidade (quando salientou-se Stª Joana d’Arc). Na passagem da Idade Média Baixa, para a Idade Moderna (século XV e XVI) os últimos Valois e finalmente os Bourbon (ramo mais colateral dos Capetíngios) já estão aptos a instaurarem o Absolutismo, ou seja, autoridade suprema dos Reis, sobre todos seus súditos, sejam do clero, da nobreza e das diversas categorias do povo, como verdadeiros Taumaturgos. Os Reis sempre foram taumaturgos, pelo menos a partir do primeiro Carolíngio, “Pepin le Bref”. Os anteriores, os Merovíngios, recém convertidos ao Cristianismo, eram mais chefes militares, chefes guerreiros do que Reis Taumaturgos. Pepin, entendendo que a Doutrina Cristã, ensinava que todo o Poder se origina em Deus, e portanto, não só o Poder do Papa e dos Clérigos, mas também o do Rei, se fez coroar em Reims, como Rei de França, e depois, pelo próprio Papa Estevão III, como já vimos. A partir de Carlos Magno, também coroado em Roma, é que a Monarquia absorve do Cristianismo, a idéia da taumaturgia. Essa idéia esse caráter de origem divina, deu a Carlos Magno e a seus sucessores Carolíngios, Capetíngios Diretos, Valois e Boubons, um enorme poder. Todos, a eles se submetiam, como a um representante do Poder Temporal de Deus, daí, o dobrar o joelho, as reverências, o protocolo, os tratamentos, etc... Mas, evidentemente, esse poder temporal de origem divina, só ganhou grande força, quando foi alicerçado pelas armas, pelas terras (poder econômico) e pelas vitórias militares.
Carlos Magno tinha tudo isso, mas seus sucessores, nem sempre os tiveram. Houve grandes momentos de Poder, como, por exemplo, a implantação do Sacro-Império-Romano-Alemão pelos Príncipes da Saxônia, Otto I, Otto II e Otto III, mas houve também decadências originárias de divisões, por heranças, de guerras e traições. A França de S. Luis IX Capetíngio Direto (1226-1270) portanto século XIII, era o primeiro Reino da Europa, mas já seus bisnetos e depois os Valois, deixaram os ingleses conquistarem grande parte do Reino. A segunda Guerra dos Cem Anos, a mais conhecida com esse nome, fez da França uma só desgraça. Foi necessária a intervenção divina, com Stª Joana d’Arc, para a França coroar seu Rei Carlos VII (Valois) e restaurar sua unidade e dignidade.
Esse poder divino dos Reis atingiu com Luís XIV e Luís XV (Boubons) um exagero inconcebível. Um Duque qualquer preferia largar seu castelo e suas terras, para residir em Versalhes, em pequenos aposentos, mas perto do Rei, podendo trinchar sua carne, à mesa, ou vestir sua camisa, ao acordar. Porque o Rei era o sol de sua vida (Roi Soleil), quase um deus.
A Doutrina Católica nos ensina que todo o poder origina-se em Deus, pois só Deus é Poder, porém, no caso dos governantes temporais, sejam monárquicos ou republicanos, isto só se verifica: 1) se o governante reconhecer que seu poder vem de Deus, e através da Igreja, portanto do Papa, e do povo; 2) se houver respeito, amor e devoção do povo pelo soberano ou presidente, isto significa que Deus concede àquela pessoa o direito de governar e a Igreja o reconhece como tal. Do contrário, o Rei ou Presidente são ilegítimos. Já no Antigo Testamento Saul tinha sido ungido pelo Profeta Samuel. Anos depois, o rei estava preste a enfrentar um exército filisteu, e o Profeta não aparecia para abençoar o exército israelita. Seus generais insistiam para que o Rei começasse a guerra, mesmo sem a bênção do Profeta, e argumentavam que talvez Samuel fosse um falso Profeta. Saul respondeu: “Se Samuel for um falso Profeta, eu sou um falso Rei”. Hoje, podemos dizer, repetindo a frase de Saul dentro do contexto antes explicado 1) Se o Rei ou Presidente não reconhecer a Igreja como a representante na Terra do Poder de Deus e a ela submeter-se, esse Rei e esse Presidente, são falsos (ilegítimos) 2) Se o Rei ou Presidente não reconhecerem que seus poderes vêm de Deus, não só pela Igreja, mas também pelo amor, respeito e devoção de seus povos, também são falsos Reis e falsos Presidentes.
Os governantes governam, já diziam os medievais, “Pola Lei e Pola Grey” (Português antigo, que significa: Os Governantes só governam legitimamente, pela Lei de Deus e pela vontade do Povo.)

FIM

terça-feira, 12 de agosto de 2008

TIRADENTES

Tiradentes
Otto de Alencar de Sá-Pereira


Tiradentes é um dos mais graves enganos da História, contada a partir da república. Há algumas décadas passadas celebrava-se o 21 de abril. Nada mais justo: descobrimento do Brasil: Agora não. O 21 de abril passou há um dia qualquer desapercebido de comemoração, fazendo o povo esquecer-se da data. E aí passou-se a celebrar o 22 de abril de abril: Tiradentes! Mas, por que Tiradentes? O Império tivera, em sua história, muitos ícones a comemorar. Além de D. Pedro I, de D. Pedro II, de D. Leopoldina, de D. Amélia, de D. Thereza Christina e da Princesa Isabel, o Império tivera Caxias, Osório, Tamandaré, Barroso, Porto Alegre, Zacarias de Góes e Vasconcellos, Paraná, Paulo Barbosa, Ouro Preto, Alencar, Castro Alves, Amoedo, Gonçalves Dias, Silveira Martins, Ferreira Viana, Carlos Gomes, Mena Barreto, Pirajá, etc. etc. etc.
A República precisava também de um ícone. Deodoro... nem pensar! Arrependera-se de ter proclamado a República e era amigo do Imperador. Floriano Peixoto? Credo em Cruz! Mandou passar a fio da espada, 400 guardas-marinha da Esquadra Imperial, na Revolta da Armada. Prudente de Morais? Não. Chacinou Antônio Conselheiro e todos de Canudos. Campos Salles? Rodrigues Alves? Affonso Penna? Não poderiam servir. Antes da República, eram Conselheiros do Império. Barão do Rio Branco? Como um ícone da República pode ser um Barão? Jamais. Santos Dumont? Era amigo íntimo da Família Imperial no exílio de Paris. Oswaldo Cruz? Foi um grande médico, sanitarista, do período republicano, mas discípulo de outro médico, o Barão de Motta Maia, que acompanhou a Família Imperial, no exílio.
Marechal Rondon? Talvez, mas tinha sangue e cara de índio! Washington Luís? Foi deposto por Getúlio, não serve também. Quem sabe, o próprio Getúlio? O homem dos trabalhadores. Mas... como, ícone de uma República que se diz liberal e democrática... um ditador? Amigo de Hitler, de Mussolini e de Plínio Salgado, que, por sinal, traiu? Juscelino? Fez Brasília! Mas acelerou a inflação e tinha cara de palhaço. Também não serve. Jânio Quadros? Era louco! Mas, então quem? Não há ninguém? Será possível? Villa-Lobos? Gênio da música, mas era um boêmio. Não serve. Foram escarafunchar, na História Colonial, anterior à vinda da Família Rela Portuguesa. Beckman? Não, tem nome alemão. O Sabino, da Sabinada da Bahia? Não serve, não tem perfil de ícone. Os mais antigos? Duarte Coelho, Tomé de Souza, Duarte da Costa, Mem de Sá?
Não podem! Foram nomeados pelo Rei de Portugal e eram seus súditos fiéis. Então, quem? Havia um alferes (sub-oficial) em Ouro Preto, que foi patriota de fato. Participou da conjuração Mineira de 1789 (conhecida como Inconfidência Mineira) que queria a independência de Minas Gerais, da Coroa Portuguesa, e era republicano, e foi o único que se declarou, de fato, revolucionário, enquanto os outros negaram, em Tribunal. Os outros eram importantes, Padres, Juízes, desembargadores, poetas famosos, Coronéis, outros oficiais, etc...etc... Mas todos, ou se mataram na prisão (como Alvarenga Peixoto) ou traíram seus ideais negando sua participação na Inconfidência. Tanto que a pena de morte foi reformada em exílio perpétuo para a África (que não foi perpétuo, pois 33 anos depois, D. Pedro I proclamava a independência (não só de Minas, mas do Brasil todo) e eles puderam voltar (alguns voltaram já no tempo de D. João VI). Nenhum deles, portanto, serve de ícone republicano, mas e o alferes? Não é muito insignificante? Ainda mais que nas horas vagas era barbeiro, e como, costume da época, também arrancava dentes: “Cabelo, barba e dentes”, por favor, e o fulano sentava-se, corajosamente, na cadeira do “Tiradentes”. É insignificante e acabou louco, antes de ser enforcado. (Se é que foi, há dúvidas; como era “masson”, o teriam salvo e trocado por outro, também condenado à morte. Suspeita-se). É um simples alferes, tirador de dentes. Não faz mal. Nós o inventamos. Com quem ele precisa parecer-se? Claro! Com Jesus! O mártir da pátria! Vamos por lhe barbas (os enforcados tinham cabelo e barba raspados, antes da execução). E criar sua História” Será o Ícone da República, já que não há nenhum outro. Foi um patriota republicano. Haverá dúvida? Mas por que não agiu como os demais, tirando o corpo fora? Terá sido mesmo como patriota? Ou como irresponsável, por causa da loucura?
A conjuração, antes de ser descoberta pelas autoridades da coroa-portuguesa, ia de vento em popa, embora com tão poucos partícipes, que podiam reunir-se na sala do poeta Tomaz Antônio Gonzaga (o Dirceu da Marília). Todos eram homens de estatura alta, ou da política ou intelectual, ou militar, etc. entre os de pequena estatura, contava-se Joaquim José da Silva Xavier, o alferes, tiradentes. Era jovem, robusto e patriota (pelo menos parecia ser), logo, a figura indicada para ir, de viagem ao Rio de Janeiro, a fim de encontrar aderentes à Inconfidência. Foi mandado, quase como um moleque de recados. Como não tivesse muita instrução, nem tino político, ou lábia publicitária, fracassou. Todas as portas que visitou no Rio de Janeiro, lhe foram fechadas, ou melhor ainda, lhe eram batidas na cara. Fora! Não queremos nada com você! Fruto da revolução lá dos franceses; fora! E foram tantos os foras, que o já fraco equilíbrio psíquico do Tiradentes, tornou-se em loucura. Voltou para Ouro Preto, ou vila Rica, como também era chamada a capital da capitania. A volta foi mais dura que a vinda, pois se na vinda sofrera as agruras de viajante daquele tempo, pelo menos havia a esperança! À volta, teve as mesmas agruras, mas sem a esperança. E a falta da esperança aumentou a insanidês. Pousava em fazendas, do caminho. E nas casas-grandes dos fazendeiros, (em geral ligadas ao Marquês de Barbacena, governador das Minas Gerais), contava, à mesa, que tropas do Rio de Janeiro marchariam, em breve, para engrossar os exércitos de revolucionários de Ouro Preto, que a França e os Estados Unidos enviariam esquadras, para combater o Vice-Rei, no Rio de Janeiro, impedindo-o de ajudar o Barbacena. E assim por diante. Em cada parada, até Ouro Preto, aumentavam seus delírios. Resultado: O Marquês de Barbacena ficou sabendo de tudo, antes mesmo que o traidor Silvério dos Reis, lhe contasse. Por isso não deu guarida ao Silvério e mandou prendê-lo também. Também, porque, mal Tiradentes chegou a Ouro Preto foi encarcerado, junto com todos os outros inconfidentes, que ele havia delatado, na mais pura ingenuidade dos insensatos e loucos! Como já dissemos foram todos a Tribunal, e negaram; menos ele. O processo chegou a Lisboa e o Alto Tribunal da Corte, condenou todos à pena máxima: forca! Mas reinava em Portugal uma mulher, a Rainha D. Maria I, que ainda não tinha perdido suas faculdades mentais. E como mulher e bondosa católica reformou a sentença de morte, para degredo em Angola, menos para Tiradentes, que havia confessado o crime de lesa majestade. (Dizem que mais tarde, D. Maria I, melhor informada da insanidade de Tiradentes, reformara também sua sentença, para degredo, mas a reforma da sentença, teria chegado tardiamente, pois Tiradentes já tinha sido enforcado).
O Ícone da República, o alferes Tiradentes, é uma figura tão paradoxal, quanto à própria conjuração que se pavoneou do título de Inconfidência. Que não conhecendo bem o latim, não entendeu porque a Coroa Portuguesa chamara o movimento de Inconfidência. Porque “Inconfidere”, em latim é o contrário de “Fidere”. “Fidere é confiar”; inconfidere” é desconfiar. Ou melhor: desconfia-se de quem é traidor, inconfidente: Traidores da Coroa. Até hoje, infelizmente, em Ouro Preto , na Praça, Central, sobre o portal da Casa da Câmara está escrito “Museu da Inconfidência” ou seja: “Museu da Traição”.
Fim.

PAIXÃO E MORTE DA PRINCESA D. ISABEL A REDENTORA

Paixão e Morte da Princesa D. Isabel,
A Redentora
Otto de Alencar de Sá-Pereira


Muitos a tratam de D. Isabel I, a Redentora. Por que? Porque ela, de fato, ocupou a Chefia do Estado, reinou, como Regente do Império, por três ocasiões, nas viagens ao exterior de seu augusto Pai, D. Pedro II. Somando-se o tempo destas três regências, eqüivale, mais ou menos, a um quadriênio republicano. Além disso, ela foi nossa Imperatriz, no exílio, desde a morte de D. Pedro II em 1891, em Paris, até seu próprio passamento, em 1922, no Castelo d’Eu. Sim, ela foi nossa Imperatriz no exílio, “de jure” (de direito), uma vez que, a república, no Brasil, foi imposta por um golpe militar, que não consultou a Nação. Aliás, é o próprio primeiro decreto republicano, que institui as novas Forma e Sistema de Governo (República-Presidencialista) que o confessa, pois esta Lei (decreto nº 1 da República), declara “Proclamada provisoriamente, a República no Brasil, até sua confirmação, por “referendum popular”, e ainda diz, “como deve ser”. Ora, este “referendum” nunca aconteceu, portanto a República permaneceu provisória. É verdade, que, em 1993, graças ao Deputado Cunha Bueno, houve um Plebiscito, para o Povo escolher entre as Formas de Governo – Monarquia ou República – e entre os Sistemas – Presidencialismo ou Parlamentarismo. E a República Presidencialista saiu vitoriosa. Entretanto este Plebiscito ocorreu 104 anos depois da pseudo proclamação da República, logo, na melhor das hipóteses, a república ficou provisória por 104 anos. Por que, na melhor das hipóteses? Porque este Plebiscito de 1993 pode ser considerado inválido, por inúmeras razões, que não cabem ser explicadas neste artigo (a propósito, leia-se o livro “Diálogos monárquicos” de nossa autoria).
A Paixão da Princesa D. Isabel, popularmente conhecida como Princesa Isabel, começou cedo, logo que tomou, pela primeira vez as rédeas do governo da Monarquia, como Regente. Ela vivenciou oficialmente, o problema da escravidão, problema este que, como um espinho em seu coração, ela já sofria, desde que tomou o uso da razão. Ela sofria, mas nada podia fazer, a não ser pedir a seu Augusto Pai que alforriasse escravos ou que incentivasse o Parlamento e os Gabinetes de Ministros a produzirem leis abolicionistas. Os dois espinhos de sua coroa, que entitulamos de Paixão, foram, fora de dúvida, a escravidão e a traição com que seu Pai e toda a Família Imperial foram atingidos, pela instauração à força da República no Brasil. O problema da escravidão, ela julgou ter solucionado, pela Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, em sua terceira Regência; mas, sem querer, com esta lei ela impulsionara a derrubada de um Império tão sólido, tão próspero e tão democrata. E às escondidas do Povo em uma noite nebulosa de 16 para 17 de novembro de 1889, a Família Imperial foi exilada, no desconhecimento total do Povo e da Nação. Estes foram os dois espinhos que, da Coroa de Espinhos de N. Senhor Jesus Cristo, implantaram-se no coração da Princesa, como uma nova Rita de Cássia. Depois do sofrimento, que durante anos agüentou pela convivência com a escravidão, o segundo sofrimento, não foi tanto à instauração da república, em si mas sim, o modo como ela foi estabelecida, pela traição. Traição à Nação, traição a seu Pai, Traição à sua Família e traição também a ela, pois a República punha em derrocada o terceiro Reinado, que seria o seu para o qual ela já tinha dado provas, mais do que cabais, de competência para exercê-lo em suas Regências.
Traição à Nação, uma vez que tratou-se de um golpe militar, no qual, a não ser a cúpula de comando, os próprios soldados, não sabiam o que estava se passando. Seria uma parada? O povo conhecia menos ainda o que ocorria. Só veio a saber, o povo carioca e fluminense, dois dias depois que a Família Imperial já tinha sido exilada. Nos outros estados (na época províncias) só semanas ou meses depois. No Amazonas, só dois anos depois. Mas houve mesmo golpe militar? Havia republicanos no Brasil? Os republicanos teriam sido os autores do golpe militar? Respondendo às três perguntas, podemos afirmar que havia uma cúpula política de republicanos. Muito poucos, entretanto, pois, apesar de possuírem um Partido Republicano não conseguiam eleger, em cada legislatura, se não, dois ou três deputados. Constataram que, democraticamente, não conseguiriam nunca instaurar a república no Brasil. Apelaram para a força. Mas que força? A Marinha e o Exército eram fidelíssimos ao Imperador. Colocá-los em confronto com a Coroa, parecia impossível. Tentaram então derrubar o Gabinete de Ministros. Seria um primeiro passo para derrubar a Monarquia. Fomentaram desavenças entre os militares e principalmente do Exército e os políticos civis. Qualquer atitude do Gabinete de Ministros, em relação a militares, era o suficiente para botarem lenha na fogueira.
O Major Fulano foi mandado para a fronteira com a Bolívia? Que absurdo! Coitado do Major! Isso é perseguição dos políticos contra os militares. Algum militar não foi promovido em tempo útil? Outra afronta contra as Forças Armadas! E as brasas da fogueira crepitaram cada vez mais! Na Marinha, quase nada. A Marinha sempre foi muito fiel à Coroa. Mas no Exército, de fato, havia problemas. Os militares graduados, que tinham voltado da Guerra do Paraguai, condecorados, intitulados Barões ou Condes, queriam participar da política. O Imperador e os políticos civis, não gostavam da participação de militares na Política. Os grandes generais, da Guerra do Paraguai, como o Duque de Caxias, o Conde de Porto Alegre, o Marquês de Herval (Osório) já tinham morrido. A figura proeminente no Exército era portanto o Marechal Deodoro da Fonseca, de família empobrecida de Alagoas, que tinha sido muito ajudada pelo Imperador. Deodoro, poucos dias antes da Proclamação da república, escrevera a um sobrinho, na Bahia: “República, no Brasil, é sinônimo de desgraça completa”. Os republicanos sabiam que só ele, o homem forte do Exército, teria meios de tornar a república, algo realizável. Entretanto Deodoro se considerava amigo do Imperador. Nunca iria contra ele. Mas, contra os Ministros, talvez, sim, pois para Deodoro, depois do Brasil e do Imperador, o que mais valia, era sua farda. Algo contra sua farda, contra o Exército, da parte dos políticos, os casacas, como ele os chamava era impensável. Os republicanos sabiam disso, e aproveitaram-se. Foram tirar da cama, o pobre Marechal, febril numa crise de erisipela, para fardá-lo, e comandar uma tropa, para vingar a honra dos militares, manchada pelo Gabinete do Visconde de Ouro Preto. Ao chegarem ao Palácio, onde ser encontrava reunido o Gabinete de Ministros o Marechal e sua tropa cercou-o e, não havendo contra-ofensiva da tropa governamental (comandada por Floriano Peixoto, que se dizia monárquico, mas era republicano, ou oportunista), permitiu que Deodoro fosse enfrentar, cara a cara, o Visconde de Ouro Preto. Se Deodoro era um touro bravio, Ouro Preto era um leão de bravura. A discussão foi violenta, e não se chegou a nada, a não ser a vitória da força bruta, (como diria La Fontaine, no início de sua fábula do lobo e do cordeiro: “La raison du plus fort c’est toujours la meilleure, nous allons montrer tout à l’heure” – a razão do mais forte é sempre a melhor, nós vamos mostrar agora), pois, ao sair do Gabinete do Primeiro-Ministro, aos berros e pondo fogo pelas ventas, Deodoro determinou: “este Gabinete de Ministros está demitido e a todos estou dando ordem de prisão.” Estava derrubado o Governo, mas não o Estado. Ou seja, o Primeiro-Ministro (Presidente do Conselho de Ministros) e os demais Ministros, mas não a Coroa não a Monarquia. Tanto é verdade que, 1º: O Deodoro autorizou o Visconde de Ouro Preto (ex Primeiro Ministro) a telefonar para Petrópolis, pedindo ao Imperador que descesse ao Rio, para formar novo Gabinete de Ministros, como exigia a “praxis” da Monarquia Parlamentar, pois o país não podia ficar sem governo. O Gabinete de Ministros tinha sido derrubado inconstitucionalmente, mas o fato concreto, é que tinha sido derrubado. 2º: Os líderes republicanos não se desligavam de Deodoro, não satisfeitos com, só a derrubada do Gabinete de Ministros, e a não derrubada da Monarquia (diga-se, de passagem, que, naquela momento histórico, se o Deodoro tivesse querido, podia tê-lo feito, e já tinham até redigido um documento de Proclamação da República, a que Deodoro, peremptoriamente, recusava-se a assinar.
Derrubado o Gabinete de Ministros, o Imperador avisado pelo Visconde de Ouro Preto, (o ex Primeiro Ministro), desceu calmamente de Petrópolis, e reuniu-se com os líderes do Partido Majoritário, na tentativa de formar um novo Governo. Era o que tinha de ser feito. Depois, o Imperador chamaria Deodoro em particular, para acertar os ponteiros; Afinal, Deodoro agira, contrariando a Lei Magna de Nação. Nessa reunião do Imperador com os Parlamentares da Situação, algum deles sugeriu o nome de Silveira Martins, mas, como o Deputado gaúcho encontrava-se junto a suas bases políticas, no Rio grande do Sul, seu nome foi imediatamente alijado. Entretanto, não sabemos por que cargas d’água?, encontrava-se no ambiente, o Major Solon Ribeiro. Talvez como oficial ajudante de ordens de algum general presente. Ele era republicano “tout court” e percebeu ali a ocasião propícia de criar um incidente, que redundasse na Proclamação da República. Por que? Ele conhecia beníssimamente a rivalidade que existia entre Deodoro e Silveira Martins. Quando Deodoro servira no rio Grande do Sul, como Comandante Militar, o Presidente da Província era Silveira Martins. Tornaram-se inimigos políticos e também rivais de relações extraconjugais. Ambos eram casados, mas ambos tinham a mesma amante e esta dava preferência ao Silveira Martins. Existia ódio entre os dois. O Major Solon elaborou então, naquele momento, em sua mente doentia, uma idéia que certamente ia provocar a Proclamação da República. Esta idéia, que ele logo a pôs em prática, era de sair dali, a todo galope, provocando o brio dos militares e principalmente, do Deodoro. Seria espalhar, como um novo Calabar, o boato fatídico que atingiria, como um dardo o coração de Deodoro. O boato consistia em dizer que o Imperador dera ordem de prisão ao Deodoro e que nomeara o Silveira Martins para Presidente do Conselho de Ministros. Quando este boato chegou à casa de Deodoro, como uma granada, explodiu. Deodoro julgando que o Imperador fizera aquilo, especialmente para feri-lo, arrancou das mãos dos republicanos, a Proclamação da República, e com ódio nos olhos, disse: “Dê-me cá esse papel” – e assinou-o. Estava proclamada a república do Brasil! – Quando a verdadeira notícia chegou, de que não havia nenhuma ordem de prisão contra Deodoro, e que o Presidente do Conselho nomeado tinha sido o Conselheiro Saraiva, Deodoro caiu em depressão, e declarou ao oficial que tinha trazido a verdadeira notícia: “Tarde de mais!” Por que tarde de mais? Comparo a posição de Deodoro, nestas circunstâncias, com o Patriarca Isaac, do Povo Hebreu, que, enganado, concedera a Benção Taumaturgica antes da morte, ao filho Jacob, em lugar de dá-la ao primogênito Esaú. Quando soube da verdade, por que Isaac não voltou atrás? Não podia, a Benção era uma só. Por que Deodoro não voltou atrás? Porque também não podia; ele, na frente de todo o grupo de republicanos históricos, dera, por escrito, naquele papel, a sua palavra final. De rancor contra o Major Sólon, ordenou que fosse ele, o encarregado de dar a notícia ao Imperador (todo este assunto, encontra-se, também mais bem pormenorizado, no Livro “Diálogos Monárquicos”, de minha autoria).
Uma mulher tinha sido o “pivô”, que impedira o Reinado de outra mulher, a Imperatriz do Brasil D. Isabel I. O Brasil já tivera três Imperatrizes D. Leopoldina de Áustria e D. Amélia de Leuchtemberg, consortes de D. Pedro I e D. Thereza Christina de Bourbon das Duas-Sicílias, consorte de D. Pedro II. Com D. Isabel I, entretanto, o Brasil teria, forçando a língua portuguesa, não uma Imperatriz, mas uma “Imperadora”, não a esposa de um Imperador, mas ela mesma a Chefe de Estado, assim como sua contemporânea a Rainha Vitória da Inglaterra, ou sua antepassada, a grande Maria Thereza de Áustria Imperatriz (Imperadora) do Sacro-Império-Romano-Alemão e “Rei da Hungria”. Ou como a atual fantástica soberana da Inglaterra Elizabeth II. Essa foi a Paixão de D. Isabel.
Retirada para o exílio junto com seus pais, teve início sua morte, que foi lenta. Primeiro com a perda de sua Mãe D. Thereza Christina, um mês apenas depois da Proclamação da República, no Porto, em Portugal. Dois anos depois, com a morte de seu Pai, D. Pedro II, em Paris, a cinco de Dezembro de 1891. Em seguida, com a renúncia de seus direitos, ao trono do Brasil de seu primogênito D. Pedro de Alcântara. Mais tarde em 1919, com o acidente aéreo que tirou a vida de seu 3º filho o Príncipe D. Antônio (que nunca se casou), seguido da morte de seu herdeiro presuntivo, o 2º filho, Príncipe D. Luiz (pai de D. Pedro Henrique, neto de D. Isabel, que a sucedeu), em 1920.
Seu espírito e seu corpo não agüentaram tantas agruras e ela veio a falecer em 1922, no ano que o Governo da República suspendera a Lei que bania a Família Imperial do território nacional. Morreu santamente, era católica piedosíssima e embora não tenha ainda sido canonizada, em caracter particular podemos rezar a ela “Sancte Isabele” “Ora pro nobis”.
Fim.

Otto de Alencar Sá Pereira